Sátántangó, romance do húngaro László Krasznahorkai, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura deste ano, foi publicado em sua terra natal em 1985. Quase quatro décadas mais tarde, em 2022, a obra ganhou a sua versão em português no Brasil. A tradução, direta do húngaro, assinada por Paulo Schiller, foi publicada pela Companhia das Letras. Antes dessa versão de Schiller, Krasznahorkai era pouco conhecido por aqui, ainda que já fosse considerado um dos grandes nomes da literatura contemporânea. Sua obra, que abrange vários romances, tem sido comparada às de Franz Kafka, James Joyce, Samuel Beckett, entre outros antepassados literários ilustres.
A propósito da recepção da versão brasileira de Sátántangó, em 2023, vale destacar, Schiller venceu o Prêmio Paulo Rónai da Biblioteca Nacional. Schiller não foi o único tradutor do romance premiado pela versão do livro para outras línguas. Há dez anos, Sátántangó venceu o Man Booker Prize, que premia livros disponíveis em língua inglesa. O reconhecimento destacou os trabalhos de dois tradutores, George Szirtes and Ottilie Mulzet.
Nos prêmios de tradução, é quase impossível, como parece óbvio, que os membros do júri conheçam a língua de partida de todas as obras inscritas. Mesmo que todos os jurados compreendam um número expressivo de idiomas, é improvável que tenham tempo hábil para cotejar o original com a nova versão na língua de chegada. Nessa categoria de prêmio, portanto, outros quesitos parecem ser tão importantes quanto a tradução em si: o nome do autor traduzido, o ineditismo da obra no idioma de chegada, a linguagem usada pelo escritor e a dificuldade para transpô-la para outro idioma.
No caso de Sátántangó, a leitura de algumas de suas páginas iniciais já traz à tona construções complexas, como longos parágrafos, entrecortados por parênteses, que compõem um emaranhado de informações. Podemos avaliar que a sua versão para o português é bastante difícil, sobretudo quando preservar o valor literário do texto é a maior preocupação do tradutor.
Schiller chamou a atenção recentemente para o fato de que o final de algumas longas frases do romance era diferente, no plano semântico, do que estava afirmado no seu início. Nesse caso, o tradutor se vê diante de uma quebra-cabeça linguístico, cujas palavras devem ser reencaixadas com êxito na língua de chegada, a fim de proporcionar ao leitor a mesma experiência estética do original.

Ao longo de todo o trabalho, portanto, o bom tradutor naturalmente buscará manter o ritmo original das frases, o que implicará estabelecer um critério para selecionar as palavras certas. Segundo alguns teóricos da tradução, o autor e o tradutor estão intimamente associados, formando, durante o processo de tradução, um par indissolúvel, seja “por atração, desejo e também por obrigação (por contrato)”, como lembra Sérgio Medeiros em um ensaio intitulado “Partexto, pararte”.
O fato é que a tradução será considerada bem-sucedida se recriar os elementos fundamentais da obra de partida. No caso da versão de Krasznahorkai para o português, a obra, como a sua leitura o revela, permaneceu “instigante e visionária”, características destacadas pelo comitê do Nobel, ao conferir o prêmio ao autor húngaro.
Confiar no trabalho do tradutor, sobretudo quando a língua é pouco conhecida, é também importante. Há determinados textos, os inventivos, por exemplo, que exigem que o tradutor faça adaptações na língua de chegada. Essas “modificações” podem acender um alerta no leitor e gerar nele uma certa desconfiança. Mesmo sem dominar a língua de partida, o leitor desconfiado talvez busque algo que considere um deslize ou uma distração do tradutor. Isso justificará a sua má vontade para com a versão “muito” criativa do texto. Se por um lado essa desconfiança é positiva, por outro lado ela pode paralisar a leitura da obra traduzida.
A importância dos paratextos
Para que a confiança volte a reinar, é importante, acredito, ouvir a voz do tradutor, através de notas, prefácios, posfácios. Nos paratextos, o tradutor saberá explicar de maneira convincente determinadas escolhas, conseguindo, assim, conquistar a adesão do leitor.
Contudo, nem sempre o tradutor dispõe desse precioso espaço para se manifestar. Basta lembrar que ele ainda luta, no Brasil e alhures, para ter o seu nome impresso na capa das obras que verteu para outro idioma. Os prêmios de tradução, nesse sentido, são fundamentais para dar visibilidade a esses profissionais, que são essenciais para a circulação das obras em boas versões, sobretudo as literárias.
No que diz respeito a Sátántangó, o nome de Paulo Schiller não consta da capa do livro, mas apenas da contracapa, e tampouco se deu a ele espaço para se manifestar como tradutor a respeito de um texto tão complexo. Em tempos de Inteligência Artificial, a voz do tradutor de literatura se torna ainda mais importante, pois só ele saberá apontar as nuances no texto que exigem soluções criativas de tradução.
Michel Foucault, em tradução de Inês Autran Dourado Barbosa, lembra que, “sob uma palavra que pronunciamos, o que se esconde não é outra palavra, nem várias palavras unidas, mas, na maior parte do tempo, uma frase ou uma série de frases […]”. Isso porque, diz o pensador francês, o estado primeiro da língua não seria um conjunto definível de símbolos e regras de construção, mas “massa infinita…”: “era uma massa infinita de enunciados, um escoamento de coisas ditas”. De modo que, por trás das palavras do nosso idioma cotidiano, o que encontramos não são constantes morfologias absolutas, mas “afirmações, questões, desejos, comandos”. Essa é a matéria-prima do tradutor, que precisa sempre levar em conta que, em cada aparição, “a palavra tem uma nova forma, tem uma significação diferente, designa uma realidade diferente”.
Mas, como adverte Foucault, a palavra vive um paradoxo, pois “de cena em cena, apesar da diversidade do cenário, dos atores e das peripécias, é o mesmo ruído que circula, o mesmo gesto sonoro que se destaca da confusão e flutua por um instante sobre o episódio, como uma senha audível”. O bom tradutor certamente está atento a isso tudo e a muito mais.
Dirce Waltrick do Amarante é professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autora de Metáforas da Tradução. Organizou e cotraduziu, com o Coletivo Finnegans, o romance Finnegans Rivolta, de James Joyce, vencedor do Prêmio Jabuti em 2023 na categoria tradução.