imagem – A escriotra polonesa Wisława Szymborska, que recebeu o prêmio em 1996/reprodução
Prêmio máximo das Letras, o escolhido de 2021 será anunciado na próxima quinta-feira, 7
Redação
Ser laureado pela Academia Sueca não é para qualquer bico de pena. Entregue pela primeira vez em 1901 ao poeta francês Sully Prudhomme, a honraria é concedida anualmente em solenidade na cidade de Oslo. Ao decorrer dos anos, o Nobel se espalhou para nomes de todos os continentes, embora sejam escritores europeus a maioria dos títulos. Interropindo durante os anos de guerra (1940-1943), o Nobel premiou em 1945 a autora chilena Gabriela Mistral, primeira latina do panteão.
Com a premiação chegando, especula-se muito quem será o próximo nome a receber o Nobel. Polêmico, com o juri acusado de omissão e preconceito, a Academia Sueca é uma instituição, para muitos, controversa, por não abrigar diversidade, ao que diz respeito a mulheres e pessoas não brancas. Nos últimos prêmios, a polonesa Olga Tokarczuk e o austríaco Peter Handke passaram por saia justa, com o evento cancelado em 2018, tendo Tokarczuk recebido, junto com Handke, a insígnia de Alfred Nobel só no ano seguinte. Em 2020, quem levou foi a poeta norte-americana Louise Glück, escolha até então improvável que revelou ao mundo a prosa confessional da professora universitária.
A esquipe da fina selecionou 10 ganhadores do Nobel para relembrar a importância do prêmio:
‘Sobre os ossos dos mortos’ é narrativa pulsante que coroou a produção da Nobel Olga Tokarczuk

No romance, questões existenciais se entrelaçam ao romance policial a partir dos conflitos entre o natural e a civilização
As complexidades das relações antrópicas, destacando o elo entre o homem e a natureza, são fontes inesgotáveis para a tradição literária. Sobre os ossos dos mortos, romance da polonesa Olga Tokarczuk publicado no Brasil pela Todavia, bebe dessa fonte renovando do tema em um existencial suspense. Laureada pelo Nobel de Literatura de 2018, a escritora segue o êxito polonês na premiação maior, entre eles Wislawa Szymborska, nome conhecido em terras brasileiras. No entanto, Tokarczuk foge ao nacionalismo, o Nobel chegou em um conturbado período político de ascensão reacionária na Europa, governos cujos moldes a autora é crítica ferrenha. Definida pelo “cruzamento de fronteiras como uma forma da vida”, prova da afirmação no enfrentamento das barreiras do idioma, a tradução de suas obras para o inglês orientou o reconhecimento internacional. (Giovana Proença)
Svetlana Aleksiévitch constrói narrativa amparada em relatos de soviéticas

foto SERGEI GAPON | Crédito: AFP
As transcrições fiéis das entrevistas gravadas não podem retratar as lágrimas despejadas ao longo das conversas, mas podem recuperar a emoção e o trauma. O papel desempenhado por Svetlana recebe a sua devida importância: ela é alguém que escuta a dor.
Aguerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch, Nobel de 2015, é um romance plural e, por isso, impossível de definir. É complicado discuti-lo e ainda mais difícil classificá-lo, porque não é uma história comum. Trata-se de uma colcha de retalhos formada por muitos acontecimentos, uma teia de narrativas diversas e um mosaico construído a partir de inúmeros rostos, mas não há uma imagem que defina a sua totalidade. (Laura Pilan)
Contos de Thomas Mann versam sobre temas consagrados pelo autor

imagem/divulgação
Com forte influência da filosofia de Nietzsche, os contos reforçam a aspiração de Mann de navegar entre o lírico e o trágico, ainda que nos mares da épica.
Além de consagrar obras como A Montanha Mágica e Morte em Veneza, subverter o clássico em Doutor Fausto e colocar Tonio Kröger entre as mais célebres personagens da literatura, Thomas Mann foi, primeiro, um contista. A obra do autor na forma breve se apresenta multifacetada, transita entre as inovações modernistas e a beleza da narrativa tradicional, em edição da Companhia das Letras, que traz a obra do Prêmio Nobel de 1929 aos brasileiros que desejam ter contato com um dos mais eruditos gênios literários modernos. (Giovana Proença)
Presságios de Saramago

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Único escritor lusófono a ser laureado com o Nobel, em Ensaio sobre a cegueira, Saramago antecipa questões de lutas sociais da segunda década do século XXI.
“Quantos cegos serão precisos para fazer uma cegueira?”, a pergunta ecoa as páginas de Ensaio sobre a Cegueira, livro decisivo para a conquista do Nobel de José Saramago em 1998, três anos após a publicação da magnus opus do autor português, primeiro e único lusófano a ser contemplado pela maior honraria da Literatura. A Academia Sueca, responsável pelo prêmio, enalteceu o escritor pela compreensão da realidade fugidia em suas parábolas. A declaração corrobora com o teor profético da obra de Saramago: a dissecação da anatomia das contradições de estruturas sociais que se tornariam latentes nas primeiras duas décadas do século XXI. (Giovana Proença)
‘Doutor Jivago’ enfureceu o regime soviético e se tornou romance aclamado na literatura mundial

imagem/reprodução
Obra levou Boris Pasternak a receber o prêmio Nobel de Literatura dois anos antes de sua morte, aos 60
Ao escrever uma obra definitiva, que retratava o território russo sem poupar qualquer crítica aos governos comunistas, Boris Pasternak irritou a então URSS e Doutor Jivago ficou à mercê da censura soviética. Mas o livro saiu, primeiramente na Itália, em 1957. A partir daí, ao revelar a miséria da Rússia para o mundo, Pasternak foi perseguido e ameaçado. O governo de Joseph Stálin obrigou o escritor a recusar o prêmio Nobel de literatura, que ganharia no ano seguinte. (Matheus Lopes Quirino)
Toni Morrison discute racismo e literatura em ‘A origem dos outros’

Sentir empatia pelo estrangeiro é a possibilidade de se tornar estrangeiro, perder a “diferença” que os faz ser “superiores”
A autora nasceu em 1931, em Ohio, nos Estados Unidos. Toni Morrison formou-se em letras pela universidade de Howard. Romancista e a primeira negra a receber o prêmio Nobel de Literatura em 1993, o livro A origem dos outros foi inspirado na série de palestras que a autora deu na Universidade de Harvard sobre “a literatura do pertencimento”. A forma como o texto é escrito, permite uma fácil compreensão das reflexões abordadas pela autora e levam o leitor em uma viagem temporal sobre o racismo. (Sara Beatriz Rodrigues de Souza)
Hermann Hesse conta mito do cancioneiro alemão através da mítica figura do viajante Knulp

Knulp: Três histórias da vida de um andarilho é o primeiro de três livros que a editora lança do ganhador do Nobel de 1946
Mais do que um singelo título, Knulp nomeia a personagem central da obra do escritor e pintor alemão Herman Hesse, acompanhando três histórias e encontros de um andarilho, que caminha na contramão dos padrões esperados pelo ambiente que integra, a Alemanha do fim do século XIX. Publicado pela primeira vez em 1915, em plena eclosão da Primeira Guerra Mundial, o livro do autor Prêmio Nobel de Literatura versa sobre três histórias da vida de um andarilho, subtítulo e definidor do livro, Knulp é apresentado por seus encontros amorosos, amigáveis e espirituais. (Giovana Proença)
Escultor da memória, Ishiguro conta distopia sobre as origens da crueldade cibernética

Kazuo Ishiguro possui uma das obras mais versáteis do Japão, traduzida para dezenas de países
ONobel de Literatura de 2017, concedido ao nipo-britânico Kazuo Ishiguro, reviveu a surpresa da edição anterior do prêmio, que laureou o cantor e compositor Bob Dylan, uma vez que o nome do japonês Haruki Murakami era a grande aposta à condecoração. A distinção de Ishiguro justifica-se pela versatilidade do autor, elevado pela Academia Sueca pela emotividade de seus romances e a desnudez da ilusão de conexão com o mundo exposta no conjunto de sua obra. (Giovana Proença)
Um poema de Wislawa Szymborska é sempre um presente agridoce

É muito difícil escrever algo sobre os poemas de Wislawa Szymborska. É impossível falar sobre Recital da Autora ou As Três Palavras Mais Estranhas, em Poemas ou Vida Difícil com a Memória ou O Primeiro Amor, em Um Amor Feliz, pois não consigo dizer o que eles representam para mim, além de um espelho. É bem verdade que muitos poemas me trazem admiração, e uma sensação de reverência, e de espanto pela esperteza, e pelo quanto trabalham essa forma poética de um jeito original, mas uma leitura de Wislawa é sempre uma experiência muito diferente dessa admiração fria. (Bruno Pernambuco)
Camus virou hit literário em tempos de Pandemia

Albert Camus, escritor franco-argeliano, publicou A Peste mais de três décadas após A morte em Veneza, em 1947. Camus se relaciona a grande tradição da filosofia em língua francesa, sendo expoente do absurdismo. Em A Peste desvenda-se uma epidemia desde suas primeiras manifestações, com personagens em conflito entre a individualidade e o coletivo. Assim, a revolta coletiva é elevada como emergência pelo autor, Prêmio Nobel de 1957. A epidemia na cidade de Orã ecoa a França invadida e a difusão no Nazismo. Camus nos faz repensar a epidemia do conservadorismo e de regimes fascistas, com a onda de totalitarismo que vem tomando as democracias mundiais. (Giovana Proença)