Bem amigos da rrrrrrrrrrrede bobo, estamos aqui hoje na gélida, sombria e bucólica Curitiba para mais uma crítica de ponta. O livro de hoje? Nada mais nada menos do que Tudo que Tenho Levo Comigo, da prêmio Nobel de literatura mais esquisita dos últimos cinco anos: Herta Müller!
Não é frustrante? A gente fica esperando o ano inteiro para saber quem vai ganhar o Nobel e sai uma sujeita lá da terra do conde Drácula que a gente nunca viu mais gorda e, como o homem é a medida das coisas e como as coisas em volta do homem são a medida de todos os homens, só nos resta tentar imaginar a injustiça que cometeram com os autores que a gente conhece em preterir uma (para nós) ilustre desconhecida a um João Ubaldo, a um Mia Couto, a um Vargas Llosa (vingado no ano seguinte, rá!). E mais, digo mais! É frustrante em saber que o nosso mercado de editoração brasileiro não conseguiu vislumbrar um excelente escritor na frente daqueles putos de Estocolmo, os babacas suecos (daria um bom nome de banda, mas alguém preferiu “garotas suecas”. Por quê? É, beats me too). Na época em que a Herta Müller ganhou o galardão, só tinha um livro dela publicado aqui no Brasil, pela editora Globo que, por tradição, não costuma publicar vanguardas. Daí você acorda de manhã, ouve na rádio que o Nobel foi pra Herta Müller, faz a sua cara de “What the fuck?”, procura algum livro dela publicado em português e, tchanam!, lá na livraria empoeirada do chinês tem um exemplar empoeirado perdido ali entre os Júlio Verne, os Steinbeck, os Somerset Maugham, os Blake e tudo aquilo que os jovens hoje não leem mais, que alguém jogou ali por acreditar ser um autor muito, muito velho. Afinal, foi publicado pela editora Globo.
Mas pera lá que essa história tem um final feliz. Publicaram outro livro da Herta no Brasil. Agora são dois! Aê! Isquindolelê, é carnaval! É carnaval duas vezes (2x)! E é deste livro que vamos falar hoje.
Tudo o que Tenho Levo Comigo dá uma boa ideia de porquê Herta Müller ganhou um Nobel. A história é a seguinte: um garoto meio mocinha que mora na Romênia (terra da autora), mas de minoria alemã (ao contrário dela, que é romena mas mora na Alemanha), é colocado num trem pra servir nos campos de trabalho que os russos instituíram para os alemães pagarem as dívidas de guerra. Mandaram o governo da Romênia despachar qualquer chucrute pra esse gulag hardcore. E lá foi o nosso herói, Leo Auberg que até então estava começando a descobrir os pecados da carne com uns romenos, considerados ralé ante os arianos.
Pois bem, o livro é, então, a narração de Auberg nesses campos, desde que foi, até quando voltou. “Grandes bosta, cara, já li um porrilhão de livros assim”, vocês, meus leitores espertos que se dignam a aparecer aqui todo domingo para se decepcionar com mais uma crítica abalizada, diriam com ares de um arqui-inimigo de filme do Woody Allen. Pera lá então que eu não terminei. O grande barato de Tudo o que Eu Tenho Levo Comigo é a construção da forma com que o diário é narrado. Sem lenço nem documento congelando o rabo na Rússia, Auberg se apega às palavras, e apropria-se delas para enfeitar o seu mundo cinza de clipe do Radiohead. E aí, como diz o Tim Maia, vale tudo. Vale construção cíclica, vale gagueira mental, vale prosopopéia, vale concretização de abstrato, vale usar maiúscula pra tudo no melhor estilo germânico, vale transformar a dor em personagem, a fome em personagem, tua mãe com as pregas soltas em personagem, enfim, é uma verdadeira babilônia lingüística esse livro, meus irmãozinhos.
É bem engraçado, na verdade, de ver como a autora junta essa prosa fluida, desavergonhada e adjetivada, típica dos latinos (já que ela, como Romênia, é latina), a uma narrativa que parece rígida, que chega a ser redundante para ser clara e, de alguns aspectos, limitadas pela gramática típica dos saxônicos. É realmente um estilo bem único, pelo menos pra mim, que nunca vi nada parecido. E para ela, as palavras valem não só pelo significado, mas pela sonoridade. É assim por exemplo, que ela inventa uma palavra, como Hasoweh, uma contração inventada de Hase (coelhinho) e Weh (dor). Hasoweh é TUDO nesse livro: é o som do trem, é o gás que aquece a galera, é a fome, é a dor do trabalho no campo, enfim, é onomatopeia, é substantivo, é adjetivo, é um amiguinho do protagonista. É esse o verdadeiro poder da palavra, não acredite no seu Pastor!
E, claro, uma obra portentosa dessas não chegar a nossas estantes sem o trabalho dedicado de um tradutor. No caso, de uma tradutora, a escritora Carola Saavedra. Isso aqui, meus amigos, é o Hyeronimus Bosch da tradução. Que trabalho! Aposto que a moça se desgastou mais do que o baterista do Dragonforce pra parir essa tradução, porque, olha, não é fácil. Até hoje só babei nessa e na tradução do Nicolau Sevcenko de Alice no País das Maravilhas. Eu reconheço trabalho difícil quando eu vejo um, e vi o empenho da Saavedra em achar palavras, caminhos, atalhos, escadinha de casa na árvore pra escapar das ciladas lingüísticas que em que a Herta Müller joga seus tradutores. Deviam fazer um Jogos Mortais em que ela era o Jigsaw e os tradutores é que tem que desvendar um jeito de sair daquela frase. Mwhuahuahua!
Essa edição da Companhia das Letras é bonitinha mas nada demais. Papel Pólen, fonte Electra, essa foto mei-azul-mei-arroxeada que é pra dar a impressão de que você tá pegando uma gripe enquanto olha pra esse trem e o selinho de Prêmio Nobel, a bandeira 2 das editoras. Agora, que o conteúdo é bom, ah isso é!
Comentário final: 298 páginas. Hasoweh!