(...) «Agarrando-a pelo braço, empurrou-a tranquilamente para a porta:

  -- Quem te pega? Vai, mulher, vai!

Soltou-se o pranto nos olhos de Joana:

  -- Quando me cometeu eram sete falinhas doces...

Em voz terna, acariciado da voluptuosidade das lágrimas, retorquiu:

  --Olha, Joana, eu nunca deixarei de te socorrer; mas lá quanto a readmitir o teu homem, tó-ruça! Tenho perdido um dinheirão por causa dele; nem tu imaginas!

O sangue tingia as faces de Joana, apagando-lhes as rugas de sete ninhadas de filhos. Além de que os seus olhos muito pretos eram sempre bonitos, com o choro veio-lhe uma expressão nova, quase de donzela, que esbraseou o Loba. Passando-lhe o braço em torno do pescoço, bichanou ao ouvido:

  -- Ouve, Joana, eu cá serei sempre o mesmo para ti. Mas é preciso que me corresponda... Tu serás sempre a mesma para mim?... Diz lá...! O teu homem que vá dar o dia; tem bom corpo, trabalhe.

Em voz encatarroada, gemeu:

  -- Vamos morrer de fome.

  -- Doida... doidona... se soubesses o bem que te quero, não dizias disparates!

E, encostando a cabeça à dela, beijocou-a, deixou-lhe pelas orelhas, pelas têmporas, uma baba fátua de caracol.

  -- Joaninha, tu agora vais a casa da Borralha... hem? Já lá vou ter.

  -- Não, hoje não.

  -- Hoje, sim!

  -- E admite o meu homem?

  -- Vai, lá falaremos!

Joana não perdeu cinco minutos à espera em casa da alcoveta. O Loba chegou a soprar, olhinhos a arder, como sempre que ela descia da Serra, fresca, a cheirar a estevas e erva dos altos, carnes enxutas, apetitosa do seu ventre de vaca lasciva.

Já tarde, o homem importante, limpando o suor, desdobrava uma nota de cinco mil réis no oleado do toalete. E à pressa, enjoado, despedia-se:

  -- Aqui tens; vai com Deus. Dize ao Anacleto que não o esqueço, mas lá quanto a voltar ao leite, escusa de insistir. Adeusinho!

Em cima do catre, Joana empurrava para dentro do colete de cordões os odres lassos dos seios. Logo que o Loba saiu, precipitou-se sobre o dinheiro e escondeu-o entre o couro e a camisa, contente de poder comprar a sua fornada de pão e talvez uma saia nova de chita.

Quando chegou à Serra, os gados em procissão entravam no povo. De alma simples e bonacheirona, o Cleto não se admirou ao dar-lhe a mulher conta do recado. Nem mesmo tomou o peso da liberalidade do ricaço, habituado a elas, e de moral amolecida. Quanto à despedida irrevogável, encolheu os ombros: 

  -- Pois que dizia eu?!» ...

(continua)

n substantivo feminino 
1 mulher que intermedeia relações amorosas; alcoviteira
2 mulher que dirige bordel ou prostíbulo; alcoviteira
 "Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"