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| Fotografia da minha autoria |
«Sair é bom, mas ficar em casa assistindo séries é melhor ainda»
A produção artística nacional tem crescido na quantidade e, sobretudo, na qualidade. Há anos que não acompanho telenovelas, mas permaneço atenta a um dos formatos que mais me entusiasma: as séries. E, para mim, há uma verdade incontornável, que reside no facto de a RTP ter a aposta mais sólida e credível neste setor, apresentando argumentos surpreendentes e originais. O que me deixa bastante agradada, até porque somos um país cheio de talentos. Os nomes desta lista poderiam ser outros. Porém, há sete séries que merecem este reconhecimento.
SARA [publicação completa aqui]
A obra é intensa, é crua, é vulnerável na dose certa. Manifesta a inabilidade, o vazio, a tentativa de perfeição e a constatação de que somos falíveis. Em simultâneo, sentimos a maldade, a mesquinhez, a crítica gratuita e infundada. E, de repente, tudo se resume a uma única condição: chorar. Como se tudo o resto não tivesse valor, como se o talento se desmoronasse sem esse fragmento. A caricatura é magnífica, bem como a ligação antagónica entre algumas personagens. A interpretação mordaz e ácida, de alguém sem papas na língua, abrilhanta a ação e torna-a muito mais poderosa. E é curioso como as situações - e as sensações - são levadas ao extremo, ao limite.
SUL [publicação completa aqui]
Esta série é o espelho de uma nação profundamente abalada por uma crise económica, tendo Lisboa como pano de fundo. E um traço curioso é que abre a porta para a conhecermos de um modo muito mais íntimo e genuíno, pois fazêmo-lo na companhia de personagens dinâmicas. Credíveis. Que se fundem como um pedaço da cidade. Descrevendo realidades que vão «desde os bairros operários de Xabregas» até ao lugar das elites, vamos desvendando os segredos escondidos na hipocrisia de quem só se interessa com a sua riqueza, independentemente dos meios utilizados para atingir determinados fins. Nos negócios por fachada. Na falsa fé. E na igreja evangelista que, neste contexto, é um ponto de passagem para um meio perigoso.
AUGA SECA [série luso-galega]
A história foca-se num aparente suicídio que não convence ninguém: nem a polícia, nem Teresa, irmã da vítima. Portanto, decide abandonar a sua vida em Lisboa para descobrir o que, de facto, aconteceu ao seu irmão. Filmada em Portugal e em Espanha [Vigo], vamos compreender que a teia é muito mais densa e perigosa, pois estamos perante um negócio ambicioso, que funciona como fachada para o principal objetivo: uma rede de tráfico de armas. Este drama policial evidencia a corrupção e a sensação de que a procura por respostas será ainda mais angustiante.
1986
«Em finais de Janeiro de 1986, o país prepara-se para a segunda volta das Presidenciais Soares-Freitas. Apesar de ser filho de um militante comunista em pleno ataque de nervos por ter de votar Soares, Tiago, jovem tímido, tem outras preocupações: como conseguir que Marta, a aluna mais bela da escola, repare nele? O que lhe vale são os amigos: o metálico Sérgio e a gótica Patrícia... e, talvez, o single da moda, Tarzan Boy». Numa produção relacional, que desconstrói rótulos e espelha a dicotomia do crescimento e do nosso posicionamento político, Nuno Markl criou uma das séries nacionais mais memoráveis e viciantes.
ODISSEIA
A premissa aparenta ser simples: Gonçalo [Waddington] recebe uma mensagem e vai até ao hospital buscar Bruno [Nogueira]. A partir desse momento, e porque o médico aconselhou a que Bruno não ficasse sozinho, os dois amigos passarão os dias juntos. E, ao volante de uma autocaravana, a Calipso, percorrerão Portugal de lés a lés, numa viagem entre o trágico e o cómico. Com um argumento de meta humor, metalinguagem e ironia, cada passo é imprevisível. Porque obriga-nos a repensar a realidade, ultrapassando os limites do imaginário. Com muitas peripécias e diálogos hilariantes, esta Odisseia tem tudo para nos enlouquecer e nunca mais sair do pensamento. Quanta genialidade.
A ESPIA [publicação completa aqui]
Palco de um forte contexto de espionagem e contrainformação, o nosso jardim à beira-mar plantado estava pautado pela ditadura e pela corrupção. Apesar de tudo, reinava a certeza de que fora das nossas fronteiras o caos era bem maior. Por isso, era necessário assegurar o futuro, impedindo-o de assombrar a nação com o mesmo cenário de destruição. Mas a falta de esperança, o medo e a dúvida implicavam alianças débeis e demonstrações de lealdade dúbias. Assim, havia redes mais ou menos secretas que procuravam acalentar expectativas. E todas estas componentes são retratadas n' A Espia: uma produção nacional, com um elenco de luxo, na qual se interliga o melhor da ficção com fragmentos históricos reais, numa época tão delicada para Portugal.
TERRA NOVA
«No início do século XX, nos anos 30, a Faina Maior, como ficaria conhecida a pesca do Bacalhau à linha, era uma das atividades económicas mais importantes - e, para muitas famílias, o único sustento. As campanhas eram recrutadas em cidades e vilas costeiras da costa portuguesa. E é nestas vilas que vive a tripulação do Lugre e as suas famílias». Terra Nova é a mais recente aposta da RTP e, tendo em conta o episódio de estreia, parece-me que levantará questões interessantes. Estou bastante curiosa com o seu desenvolvimento.
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