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Tema: Um livro do teu autor favorito
A viagem pelo mundo desconhecido da literatura é bastante desafiante e entusiasmante. Porque abre-nos múltiplas e inesgostáveis portas. Atendendo a que construímos pontes que nos ligam a outros géneros e a outros nomes - que, talvez, não fossem uma prioridade -, deixa-nos, ainda, mais completos, informados e sonhadores. No entanto, mesmo que esta dinâmica nos estimule de várias maneiras, regressar a uma zona de conforto continua a ser apelativo e gratificante. Porque lermos os nossos autores favoritos transmite-nos a sensação de estarmos em casa.
Miguel Esteves Cardoso é - e sê-lo-á sempre - uma referência. Pela escrita direta e mordaz. Pela irreverência. Pela inteligência. Pelo traço camaleónico. E por toda a intemporalidade com que reveste as suas obras, pois tem um olhar atento, que valoriza os detalhes centrais da nossa existência - por muito que aborde temáticas improváveis e pouco transversais. Portanto, qualquer propósito é válido para me perder nos seus livros, até porque aprendo imenso só por tentar acompanhar o seu raciocínio. Admiradora confessa das suas crónicas, para o segundo tema de Uma Dúzia de Livros optei por seguir outra rota e privilegiar o seu romance O Cemitério de Raparigas.
A narrativa apresenta uma energia dicotómica, tendo em conta que nos transporta para passagens ora tristes, ora divertidas; ora afetuosas, ora cruéis. Além disso, representa o quanto o nosso quotidiano pode ser amargo e solitário, apesar de estarmos rodeados de pessoas. De convivermos. De nos entregarmos. De nos envolvermos. De sermos um peão neste jogo que nos implica por inteiro. Com um tom proximal, algo rude e magoado, sem subterfúgios e sem medo de recorrer ao calão, acompanhamos a jornada de Fernando, que nos concede a oportunidade de analisarmos as relações amorosas de uma perspetiva masculina.
O Cemitério de Raparigas simboliza, então, uma viagem emocional, de autoconsciência, que quase nos obriga a olhar para dentro de quem somos. Porque cada reação é o espelho da essência humana. Assim, refletimos sobre a solidão, sobre a toxidade dos vínculos que estabelecemos e o seu lado descartável, sobre os sentimentos mornos e fugazes, sobre o ciúme, a obsessão, a rejeição e a morte [física e espiritual]. Em simultâneo, evidencia a necessidade de eliminar o passado - e a concorrência - e o quanto o amor nos consome, entrando numa espiral de urgência, intensidade e excitação. Com alguma desconexão e alternância entre o querer e não querer, o protagonista revisita as namoradas que foi acumulando, guardando um segredo doloroso, ao mesmo tempo que comprova que podemos ser muito irracionais quando o assunto se prende com a nossa componente afetiva.
Miguel Esteves Cardoso, com um sentido de humor particular, escreveu-nos sobre a fragilidade individual. A inconsciência. E a inocência. Mas também sobre a esperança que depositamos no sentimento mais nobre que existe - e que tantas vezes nos salva do abismo. Pode não ter entrado para o topo das minhas preferências, mas é inegável a mestria que este Cemitério de Raparigas emana, até porque nos mantém em alerta, cientes de que há destinos dos quais não podemos fugir - por teimosia, sina ou coincidência, chegamos sempre onde nos esperam.
Deixo-vos, agora, com algumas citações:
«Nem tempo me deu para perguntar porquê. Explicou-me logo tudo, tintim por tintim, desde o início, arrumando-me a um canto, sem margem alguma de manobra, ou capacidade interrogativa, ou de participação» [p:10];
«A morte é fácil de fingir, desde que esteja vivo, e ausente, e triste» [p:70];
«No estado de amor puro talvez não haja saudade nem esperança, nem verdade ou ilusão - só repetição, repetição, repetição, dos dias que o passado é incapaz de aguentar...» [p:194];
«O que mais me aterrorizava eram os nomes completos. A memória fotográfica» [p:266];
«Amei - mas só eu sei, soube pelo menos uma vez, como e quem» [p:314].
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