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| Fotografia da minha autoria |
«É preciso ver que eles vivem num mundo adormecido»
Os livros que nos fazem sentir em casa têm um lugar vitalício no nosso coração. Quer pelo aconchego que proporcionam, quer pelo sentido de pertença que despertam. E se há autor capaz de me transmitir segurança é o inconfundível, brilhante e inspirador Miguel Esteves Cardoso.
Foram as suas crónicas que me fizeram apaixonar pela sua escrita mordaz e tão pertinente. Apesar disso, a sua prosa em romance tem-me permitido descobrir novos caminhos e novas camadas do seu talento. Portanto, meses depois de ter lido O Cemitério de Raparigas, aventurei-me n' A Vida Inteira, que conta com um narrador e personagem peculiar e surpreendente - até por não ser uma seleção editorial comum -, levando-nos numa viagem complexa. Visceral. E de permanente conflito interior. Sobretudo, pelos temas colocados em evidência.
Neste exemplar, somos confrontados com a influência e a linearidade dos hábitos. Com o quanto os devaneios amorosos podem ser profundos e intensos. E com todas as questões existenciais que marcam a jornada de cada ser humano. Em simultâneo, concede-nos espaço para refletirmos sobre a mutabilidade da nossa personalidade - sempre dependente do crescimento pessoal -, sobre a dor da imprevisibilidade e sobre a morte, que nos chega como um pronúncio e, posteriormente, sobrevoa os nossos passos e, inclusive, os nossos anseios, compreendendo, então, que a análise das situações, por muito que seja partilhada e emocionalmente empática, terá sempre um impacto singular e intrínseco.
É maravilhoso regressar a MEC, atendendo a que expõe uma visão muito distinta do que nos rodeia. E, ao escolher a Alma para narrar a história não só estabelece a dicotomia corpo-alma, como também equilibra o sofrimento mental e o físico, estendendo a problemática à liberdade e à prisão do nosso espírito, como metades da mesma moeda. Além disso, fala-nos sobre as várias visões do amor. Sobre a solidão. Sobre a preferência em estar sozinho. E sobre o autoconhecimento. Porque, perante uma certa apatia social, é a nossa resiliência que nos orienta. E que nos permite continuar a percorrer esta nossa estrada.
A Vida Inteira mostra-nos o lado descartável das relações e o quanto conseguem ser complicadas. Por outro lado, há uma nudez de alma intencional, que corrobora a missão que é o amor, alertando-nos para o facto de não devermos adiar determinados sentimentos - e a sua partilha -, pois corremos o risco de nunca recuperarmos o que perdemos. E que aquilo que fica por dizer tende a magoar muito mais.
Deixo-vos, agora, com algumas citações:
«Então a minha primeira tarefa é acordá-la. Só ela. Para que a possibilidade de amor exista» [p:14];
«Sinto-me. Esqueço a minha velhice. Estou feliz» [p:68];
«Parecem cartas a pedir emprego. A única diferença é que pedem amor» [p:130];
«Eu fico na minha, vagabunda numa casa pequena, ouvindo o riso das estrelas acesas» [p:138];
«Foi o amor que me moveu» [p:202].
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