![]() |
| Fotografia da minha autoria |
«A livraria mais bonita do mundo»
Os nós que me unem à literatura ainda não estavam entrelaçados e eu já me perdia de amores por um espaço em particular, porque a sua energia é inebriante, potenciando o fascínio pelos livros, pelas histórias, pela possibilidade de viajarmos sem sair do lugar. Agora, enquanto leitora assídua, encontrei nas suas margens um amparo, que me deixa sempre expectante com um reencontro. Afinal, há lugares que fazem morada em nós.
COLOCAR O LIVRO NO CENTRO DA AÇÃO
A Livraria Lello, edifício construído pelo Engenheiro Xavier Esteves, em 1906, localiza-se no número 144 da Rua das Carmelitas. Caracterizada pela sua arquitetura neogótica, apresenta cartões de visita surpreendentes, como a madeira talhada, as colunas douradas e os tetos ornamentados. Além disso, é a sua escadaria vermelha, que interliga os dois pisos, que nos arrebata e convida a embarcar numa travessia inigualável.

Quando entramos, somos atraídos pela sua beleza e pelo ambiente misterioso que nos acolhe e incita a desvendar cada detalhe, até porque está tudo pensado ao pormenor, para proporcionar uma experiência única. Respeitando a «regra de ouro da casa» - Deus in Labore [que significa «Dignidade no Trabalho»] -, marcada no imponente vitral, é evidente que foi assumido um compromisso sério entre o livro, o leitor e a longevidade.

Priorizando uma visão inovadora, sempre desassossegada «por traçar novos caminhos», lançou uma coleção de clássicos, abriu o primeiro drive-thru livreiro do mundo, promoveu um concurso literário e inaugurou a Gemma: um espaço dedicado a «livros raros, manuscritos, primeiras edições, livros de luxo e livros objeto». E é este arrojo que demonstra o quanto se solidarizam e preocupam com a área cultural e toda a comunidade.

UMA VISITA MÁGICA
A primeira vez que visitei a Lello, a entrada era gratuita e não era possível fotografar o espaço. Atualmente, a entrada tem um custo [dedutível numa compra] e podemos captar memórias - para recordarmos quando as saudades falarem mais alto. Vários anos separam estes dois pólos, no entanto, há algo que lhes é transversal: o meu deslumbre pela livraria. Porque a herança que preserva abre-nos a porta para um mundo mágico.

Sinto que agendei a visita para a semana mais caótica, mas quis reservar a manhã do meu trigésimo aniversário para este reencontro. Embora tenha passado mais tempo na fila e o local estivesse quase lotado [o que condiciona um pouco o momento], deixei-me levar pelo tom hipnótico de cada recanto, observando o espólio livrólico que tem para oferecer. E de olhar atento, perdi-me pelas estantes tão coloridas e variadas nos títulos, nos idiomas, nos géneros, nos autores; perdi-me nas histórias que nos vão contando em surdina.

Para amantes - ou curiosos - de José Saramago, no piso superior há uma sala dedicada ao autor, «onde o escritor ganha vida através dos seus objetos pessoais, das histórias que marcam o seu percurso, das imagens que registam momentos mais especiais e, como não poderia deixar de ser, de cada uma das páginas que escreveu». Mas, além disso, também encontraremos um bosque encantado, instalações artísticas, uma sala temática de lifestyle, exposições temporárias e as montras que espelham sempre uma manifestação artística.

O INCENTIVO À LEITURA E O QUE COMPREI
A missão da Livraria Lello é bastante clara: valorizar o livro e promover a leitura, atendendo a que é uma fonte inesgotável de emoções, de conhecimento e de progresso. Em simultâneo, por acumularem tantas memórias, também são um impulso para a nossa imaginação. Alinhada com o propósito, fiz um pequeno investimento.

O processo de seleção foi um pouco difícil, porque cruzei-me com vários títulos que me chamaram à atenção. Ainda assim, controlei-me e optei por comprar um único exemplar, de uma autora cuja obra quero descobrir toda: Rapazes de Zinco, de Svetlana Alexievich. Porém, anotei outros para, quem sabe, uma visita futura.

A Livraria Mais Bonita do Mundo é mesmo um sonho. E recebendo-me com toda a a sua hospitalidade, sei que me reencontrei com um porto seguro, que embala a minha identidade em plena simbiose com a literatura.

