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| Fotografia da minha autoria |
«Entrem nas suas vidas e deixem-se encantar por todos os sorrisos»
Um sonho. É com esta projeção que começam [quase] todos os objetivos que, de alguma maneira, se tornam especiais e que influenciam o nosso traço emocional. Acompanho a escrita da Carolina Cruz - Gesto, Olhar e Sorriso - há vários anos e sei que publicar um livro sempre foi uma meta pessoal. Por isso, e por lhe reconhecer um enorme talento com as palavras, fiquei de sorriso largo por esta sua conquista, não desperdiçando a oportunidade de adquirir um exemplar.
O Coração Vive de Sorrisos tem uma premissa, por si só, fascinante e, em certa medida, inquietante, atendendo a que irá colocar em causa conceitos prévios, nos quais reconhecemos fundamento. No entanto, e como tantas vezes defendo, a literatura tem esta capacidade extraordinária de nos levar a questionar e a repensar as nossas convicções, porque nem tudo é linear. Portanto, assim que começamos a conhecer os contornos desta[s] história[s] - e das personagens -, é impossível não sentirmos a energia e as inúmeras lutas que travam. Além disso, mesmo que não o compreendamos no momento - o que me parece difícil -, há barreiras que se quebram. E os horizontes da nossa mente assumem que não há limites, porque não cabemos todos em caixas iguais.
Esta obra transborda amor no seu estado mais puro, embora se foque em temas delicados, que continuam a provocar desconforto numa sociedade que vive muito de etiquetas. Um dos aspetos que mais me cativou em todo o enredo foi a coerência. Em simultâneo, não posso deixar de destacar a sensibilidade com que a autora escreveu sobre os assuntos-chave. Porque conseguiu tratar a diferença e a deficiência com respeito, normalizando-a. Há pessoas que apresentam deformações ou, então, limitações em determinadas funções físicas e/ou mentais, mas isso não as torna menos dignas, não as torna menos merecedoras de afeto. Aliás, esta condição não tem que ser uma sentença. É por isso que é imprescindível insistir na inserção, na aceitação. Porque só assim contribuiremos para um mundo mais justo e menos estereotipado.
Com um registo que tem tanto de melancólico, como de belo, não há uma imagem de vitimização, muito pelo contrário! Os protagonistas nem sempre se sentem bem na sua pele, mas não se escondem nas suas restrições, porque todos os seres humanos têm defeitos, inseguranças, cometem erros e nem sempre são eficientes. É, mesmo assim, revoltante constatar que persiste tanta maldade e tanta intolerância. Porém, através destes testemunhos próximos, comoventes e verdadeiros, percebemos a luz que o amor-próprio irradia e a importância de continuarmos a lutar contra a exclusão. Numa alternância entre ficção e realidade, a identidade deste livro transporta ensinamentos imprescindíveis ao nosso crescimento.
O Coração Vive de Sorrisos é uma ode à vida. À coragem. À superação perante as adversidades. É, igualmente, uma ponte entre nós e o outro. E é uma voz ativa neste processo de erradicar a discriminação. Porque o amor não tem formas, nem tem feitios. Abraça-nos a todos com o mesmo tecido apaziguador, onde os sonhos estão ao alcance de todos. E onde as pessoas não são observadas por filtros, mas valorizadas - e amadas - por serem, precisamente, pessoas. Sem qualquer tipo de rótulo.
Deixo-vos, agora, com algumas citações:
«Ele foi a prova viva de que as pessoas com paralisia cerebral não são a sua condição, que o que têm não é uma doença e não os define, nem os prende à condição de inválidos e deprimidos» [p:3];
«Embora muitos não acreditassem, ela sabia que um dia mais tarde iria conseguir, e isso bastava-lhe, porque quando Alice nasceu, nasceu com ela a esperança» [p:29];
«Amigos são os que ficam quando todos os outros têm vergonha de ti» [p:63];
«Mesmo depois de tanto tempo de ausência e insensatez, o importante é as pessoas terem a noção de que erraram, que peçam desculpa e que, efetivamente, dali para a frente corrijam e compensem todo o mal feito» [p:84];
«O amor pelos livros fez-nos viver a nossa própria história, o nosso amor que embora de pouca duração, durou o tempo suficiente para fazer os nossos corações sorrirem, o tempo suficiente para nos ensinar a amar...» [p:113].
