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| Fotografia da minha autoria |
«Mesmo no meio da multidão, todos temos coisas extraordinárias»
A vida é feita de paixões. Umas mais intensas, outras que não serão correspondidas, mas todas marcantes para o nosso crescimento e para a pegada que deixamos no mundo. E o mais interessante de escutarmos a sociedade é que encontramos elos que nos unem e que nos permitem recordar situações específicas da nossa história. Atendendo a que os livros também nos transportam para fragmentos do passado, arrisquei num género que não faz parte das minhas escolhas prioritárias - young adult -, descobrindo a segunda obra literária de Helena Magalhães.
«Tive de me render às evidências. Se calhar não era
ele que era idiota e eu era mesmo estranha» [p:17]
Raparigas Como Nós prometia um amor irresistível e o retrato de «uma geração sem redes sociais». E, pessoalmente, creio que não defrauda as expectativas. Aliás, com uma escrita descomplicada, fluída e relacional, a autora faz-nos viajar pelas nossas memórias de adolescentes, recordando as alegrias, as frustrações, os desgostos amorosos e os comportamentos extravagantes para chamar à atenção, para nos sentirmos integrados e para gerirmos as várias emoções que nos correm no peito. Porque esta fase tem tanta intensidade, como parvoíce. Embora não me tenha identificado na totalidade, uma vez que a minha adolescência teve outros contextos, experiências e preocupações, sinto que é fácil cruzarmos detalhes e associações, sobretudo, por ser uma narrativa muito transparente e vinculativa.
«Como é que as pessoas conseguem caminhar tranquilamente,
indiferentes ao buraco que se abriu na minha vida? Por vezes
o nosso mundo é de tal forma abalado que é difícil imaginar
que mais ninguém sentiu esse terramoto» [p:102]
Um dos pontos fortes desta obra é a pluralidade de temáticas pertinentes, pois coloca bandeiras na depressão, na toxicodependência, na morte, na sexualidade, nas relações parentais e na importância do consentimento e do saber dizer não - que necessita de uma aprendizagem constante. Portanto, apresenta uma mensagem bastante profunda e crua, que nos inquieta ao mesmo tempo que nos procura ajudar a definir a nossa identidade e a encontrar a nossa voz. Nesta caminhada de autodescoberta, também deambulamos pela dinâmica de grupo, percebendo o quanto nos podemos revelar ou retrair para corresponder às exigências dos outros. Assim, através de uma protagonista que sempre se sentiu à margem, por ter preferências e ambições distintas, desconstruímos feridas que precisam de sarar, libertamo-nos do que não encaixa em nós e renascemos por compreendermos que amar é, igualmente, deixar partir, ainda para mais, quando existem sonhos incompatíveis.
«- Quando queremos muito encontrar alguém,
abrimos todas as portas» [p:201]
Correndo o risco de revelar em demasia, tenho de destacar dois aspetos que me arrebataram: o pormenor das páginas em branco, espelhando o vazio e a inércia que nos envolvem durante acontecimentos brutais, e a reta final do livro, visto que é emocionalmente desafiante. Em parte, já esperava aquele desfecho, mas foi doloroso, até porque é a prova de que as mudanças podem ocorrer tarde de mais. Em simultâneo, funciona como um alerta para o facto de não podermos salvar quem amamos, se a pessoa não quiser ser salva. Por mais que custe, por mais difícil que seja aceitar essa condição, há rumos que não controlamos. Não só porque não temos essa responsabilidade, mas também porque só avançamos até onde nos permitem. Além disso, este enredo faz-nos ponderar outra questão: o quanto tendemos a projetar nos outros o que desejamos, exigindo uma simbiose à qual nem sempre são capazes de corresponder. E, deste modo, condiciona-se o lado mais saudável de qualquer relação.
«Não podes estar sempre a querer transformá-lo em
qualquer coisa que imaginas que é melhor para ele» [p:281]
Raparigas Como Nós é doce, é intenso, é dramático, é leve. É tudo o que implica a adolescência e os primeiros passos no mundo adulto. Alternando entre o presente e o passado, mantém um ritmo equilibrado, mostrando-nos que nem tudo é simples e inocente, mas que é fundamental perpetuarmos os nossos valores. Com um amor puro, Helena Magalhães transporta-nos para uma leitura interativa, visceral, que prova que, por maiores que sejam as diferenças entre nós - seguindo, por vezes, caminhos dúbios -, todos temos medos, objetivos e impasses que nos podem atrasar. E, principalmente, faz-nos acreditar que todos guardamos algo mágico, que não deve ser escondido. Porque a nossa essência é a nossa casa. Cuidando-a, teremos sempre um lugar seguro.
«Às vezes não compreendemos o amor nem a razão
por que as pessoas fazem o que fazem» [p:384]
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