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«O que haverá de errado comigo?»
Avisos de Conteúdo: Sexo, Preconceito, Referência a Relacionamentos Tóxicos e Bullying
O romance entra nas nossas vidas relativamente cedo: seja pelas histórias das princesas, seja pelas convenções sociais. Portanto, construímos as nossas personalidades com a certeza de só sermos inteiros quando o vivermos. O que ninguém nos conta, porque distancia-se da norma, é que nem todos queremos o mesmo e que não existe algo de mal nisso. E seria muito melhor se desconstruíssemos essas verdades absolutas que nos limitam. Por esse motivo é que livros como os de Alice Osemam são tão imprescindíveis.
AS CONVENÇÕES QUE NOS PESAM
Sem Amor centra-se em Georgia, a um passo de ingressar na Universidade de Durham, em Inglaterra, prestes a ceder a um dilema bastante emocional: para além de nunca ter beijado alguém, também nunca se apaixonou. Na teoria, entendia o mecanismo, sabia o que procurar e tinha paciência suficiente para esperar pela pessoa certa. Na prática, começou a perceber que o seu corpo reagia de outra maneira, o que a levou a afundar-se num mar de dúvidas profundas e desconcertantes e a acreditar que se passaria algo de muito errado consigo.
«Ele foi a primeira pessoa que conheci com a qual
podia ficar sentada em silêncio sem que isso fosse confrangedor»
Torna-se, então, evidente, que o enredo explorará o peso dos rótulos e dos costumes/das certezas enraizadas na sociedade, porque crescemos a sentir que a nossa vida tem de seguir determinados parâmetros, caso contrário, seremos catalogados como diferentes, estranhos ou pior. Assim, a autora transportar-nos-á para o impacto dessas imposições, para os preconceitos que ainda ocupam um lugar de destaque nos comportamentos humano e para um conjunto de convições que condicionarão a jornada da protagonista.
«Sentia-me mesmo bastante sozinha e queria ser amada»
Gostava que, em certas partes, não fosse repetitivo, mas, por outro lado, talvez seja necessário repetir ideias, sensações, frustrações, conflitos internos e o desnorte transversal ao processo reflexivo, para que entendamos que não é justo reduzirmos os outros para que caibam numa caixa, para que percebamos que não é correto fazemo-los sentirem-se uma merda, apenas porque não traçam um percurso normativo, já que isso é um total desrespeito para com a sua individualidade e identidade. Portanto, urge discutirmos todas estas questões.
QUANDO TENTAMOS DESCOBRIR QUEM SOMOS
Embarcando numa viagem de descoberta pessoal, é percetível o cuidado de Alice Oseman na construção da narrativa, visto que aborda conceitos que podem não ser do conhecimento geral. No entanto, inclui-nos a todos, sem nos desamparar nas suas aprendizagens. E com os sentimentos à flor da pele, leva-nos a refletir sobre tudo aquilo que assumimos como garantido, ao mesmo tempo que desperta a nossa consciência para relacionamentos que tendem a ficar ocultos: os de pura amizade. Apesar de nos fazerem acreditar que só existe um modo de amarmos os outros, com este livro temos argumentos suficientes para comprovar que não.
«Queria que ele arrancasse o gesso. Pusesse o osso no seu devido lugar.
Queria que ele me endireitasse. Mas já sabia que não havia nada para endireitar».
Haverá, certamente, muitas raparigas como a Georgia à procura de algo que não lhes serve, porque lhes foi incutido um propósito universal. Contudo, a sua experiência abre-lhes uma nova porta, mostrando-lhes que, para além de não estarem erradas, não têm de se sentir culpadas por quererem ou por sentirem coisas distintas. Desconstruindo a obsessão e os preconceitos dentro de uma comunidade, alerta-nos, ainda, para a importância da comunicação e para o suporte daqueles que podem ter passado por inseguranças semelhantes. É nesta partilha que ampliamos a representatividade e tornamos o mundo num local mais seguro e agregador.
«Dá às tuas amizades a magia que darias
a um romance. Porque elas são igualmente importantes»
Sem Amor é uma ode à aceitação, sobretudo, no que concerne à sexualidade. E é uma carta aberta para a urgência de sermos empáticos, inclusivos e conscientes acerca do tempo de cada um. Se calhar, não concordo com o título a cem porcento, porque há muito amor a envolver as personagens, mesmo que demorem a descobri-lo, mas entendo a mensagem subliminar. Que história pertinente! Confesso que me comovi com as barreiras que se quebraram e com a honestidade. Afinal, há elos que nos amparam de possíveis abismos.
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