A vontade de reler e regressar a José Mauro de Vasconcelos era muita.
E, antes de reler Meu Pé de Laranja Lima (releitura que quero mesmo fazer - li o livro repetidamente no início dos anos 2000 e quero muito ver como a história se aguenta face ao meu envelhecimento) ou pegar na edição antiga que herdei de Rosinha minha canoa, calhou ler esta nova edição de Coração de Vidro (por ser muito mais curta e eu estar à procura de uma pequena pausa na minha leitura de não-ficção actual).
Não sabia o tema da obra, sabia apenas tratar-se de contos. É um belo conjunto de quatro pequenos contos sobre seres vivos não humanos - um pássaro, um peixe, um cavalo, uma árvore - cujas histórias têm como factores comuns o espaço físico em que decorrem, numa fazenda, e o papel da intervenção humana nas suas vidas.
Baixou os olhos. Não chorou nem explicou mais nada. Que tristeza (agora começava a descobrir) as pessoas terem de crescer e perder o coração... Que tristeza dolorida as pessoas grandes não poderem conversar e entender as árvores.
A ideia da intervenção humana como força negativa na natureza tem-se tornado mais popular hoje em dia, mas já estava presente em livros como Black Beauty ou Bambi; a consciência do quanto prejudicamos a natureza, enquanto humanidade, para favorecer os nossos desejos, tem crescido muito. José Mauro de Vasconcelos explora aqui essa temática, sobre a maldade não-intencional dos Homens, em narrativas muito mais curtas que as que ali mencionei, mais concisas.
Falam aqui da falta de liberdade, da solidão, do interesse económico, da exaustão, da negligência, do esquecimento. É um livro belíssimo que mostra a vaidade humana enquanto força motriz de muitos actos que prejudicam os outros. A vida muda, mas o amor pela natureza e a consideração pelos outros deveriam ser constantes.
4/5
