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Dez23

I - Jardim das Tormentas. 1913.

Manuel Pinto

(...) «Chegou o Inverno e tive que comprar martas, chinchilas e lontras para a Surflamme, todas as samarras sedosas e complexas com que a parisiense perfaz a sua identidade de felino. Nos parêntesis da beatitude, ouvia os braços desesperados de meus boieiros. E a voz interior dizia-me: quando dás tu o salto de onça entre os homens?
A Surflamme continuava a sua missão filantrópica de amorosa. Mme Pothier mandava-me perguntar todos os sábados -- dia de balanço -- quando lavrava o bem de alma a favor da filha.
Ninette, ... visitava-nos frequentemente, passando às vezes dias seguidos ao nosso lado. Reconheci que vinha por mim e não pude impedir-me de lhe agradecer, pensando em suas graças de Vénus Calipígia.
A apaixonada emergia, de olhos floridos e seios trémulos, da inexperiente cobrinha. A Surflamme andava muito longe para reparar no que se passava à sua beira. E eu tão-pouco poderia corresponder ao interesse da idólatra denunciando-a.
Ninette, uma tarde, surpreendeu-me em casa, onde ficara sozinho a ler Tíbulo o meu enlevo. Foi tímida, desastrada, quase ridícula. (...)
  --  Ninette -- disse eu bruscamente -- está convidada para minha madrinha de casamento.
Rompeu às gargalhadas.
  -- Aceita, claro?
  -- Casamento... Com quem?
  -- Ora com quem... Com a Surflamme.
  -- Puh!
  -- Sabe, Ninette, estou a estragar o futuro da pequena...
  -- Ah! ah!
  -- Devo-lhe esta galantaria. O casamento para mim é uma cerimónia.
  -- Deixe-se de mangar.
  -- É certo, e faço-o porque sei que o casamento valoriza a mulher que não é feia. Uma vez casada, a Surflamme encontrará facilmente o amante ideal, um segundo bom marido, porque, a seguir, divorciamos...
  -- Que razões...
  -- Encontrará, talvez a pouca distância, o marido rico e o amante modelar... E porquê?  A atracção do fruto proibido, Ninette...
  -- Deixe-se de graças, senhor Barrelas.
  -- Estou decidido.
  -- Ora...
  -- Acha que ando mal?
Encarei-a de frente, olhos nos olhos, com toda a seriedade que pude reunir. Ela fitou-me e, asperamente, o coração estalou-lhe:
  -- Está doido; com uma faniqueira?
Puxei-a contra mim; deixou-se enlaçar, beijar, amar, sem um sopro de resistência, agradecida, meia sonâmbula, como amante que de há muito saboreasse os meus abraços.»...
                                                                                                         (continua)

publicado às 19:19