ENTRELINHAS ◾ JESUS CRISTO BEBIA CERVEJA
literatura portuguesa contemporânea, realismo mágico, solidão e empatia, ficção rural alentejana, crítica literária poética
Fotografia da minha autoria«(...) romance colorido e extraordinariamente inteligente»Avisos de Conteúdo: Doença Prolongada, Álcool, Morte, Suicídio, Negligência Parental, Violência, HomicídioAs atitudes que temos com os nossos - e com todos aqueles que nos rodeiam sem conhecermos - pode ou não validar a nossa essência, mas, pelo menos, expõem aquilo que transportamos no lado esquerdo do peito. E quando o amor é a nossa linguagem, movemos mundos e fundos para satisfazermos os sonhos de quem queremos bem. E é este cenário que encontramos num dos exemplares mais encantadores de Afonso Cruz.JERUSALÉM NUMA ALDEIA ALENTEJANAJesus Cristo Bebia Cerveja é uma história de amor de uma neta pela sua avó. Por norma, procuro partilhar poucas informações sobre o enredo: não só para evitar condicionar [ou estragar] a experiência de leitura, mas também porque a sinopse pode ser lida em qualquer plataforma online que inclua a obra em questão. No entanto, sinto que, para esta, vale a pena contextualizar para ser evidente toda a dimensão da sua beleza.«- Em pequena, deixava flores às criadas do meu pai com o nome de outra criada. E a criada que recebia a flor ficava encantada e dava uma flor de volta. Punha toda a gente a dar flores a toda a gente»Rosa vive com a avó Antónia, cujo último desejo de vida é visitar a Terra Santa. Tendo em conta as dificuldades de ambas - financeiras, de saúde e logísticas -, talvez fosse impensável concretizá-lo. Em parte, sim. Mas se elas não conseguem ir até Jerusalém, Jerusalém renascerá numa aldeia alentejana, num gesto de empatia e entreajuda extraordinárias. No meio de um turbilhão de personagens peculiares, com papéis muito próprios, é comovente como o ser humano tem a capacidade de se reinventar e de unir esforços em prol dos demais.«Sentam-se junto à água em silêncio e ficam assim algum tempo»A ternura desta encenação não camufla, ainda assim, a realidade dura da protagonista, como se caminhasse de mãos dadas com a tragédia. Com uma escrita bela, poética e tão distinta, embarcamos numa narrativa triste, divertida, irónica e emotiva, que explora temas delicados como gravidez, traição, fé, religião e morte. Além disso, privilegiando um tom singelo, que «desafia todas as convenções», são muitas as cordas - e as rotas - que entrelaçam as personagens que compõem o quadro, permitindo-nos refletir sobre o que as move.«As memórias devem ser procuradas, não na cabeça encanecida, mas no corpo. As memórias enraízam-se nos ossos, na pele, nas rugas»Jesus Cristo Bebia Cerveja parece um livro dentro de outros livros. Com apontamentos profundos e um final atípico, que nos desarma por completo, mostra-nos que todos nós procuramos amar e ser amados. Ter colo. E pertencer - a algo, a alguém. E subindo a interminável escadaria da nossa jornada, gerindo emoções e fatalidades, o copo vai esvaziando até à última gota, resgatando-nos para aquilo que temos de mais poderoso.«Nós não somos nós, somos o que damos»|| Disponibilidade ||Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Muito obrigada pelo apoio ♥
Texto originalmente publicado em Entre Margens