Fotografia da minha autoria

«Sempre que pensar no meu bem, vou colorir o dia»

Vila Nova de Gaia, 19 de fevereiro de 2020

Meu Coração Hospedeiro,

Abre as tuas asas de sonho-paixão, mesmo que permaneças inseguro no voo. Não tenhas medo de cair, porque os arranhões também nos ensinam a crescer. A colar a resiliência à pele. E a saber que, algures nos nossos passos, encontraremos um solo seguro para construirmos um lar. Talvez demore, porém, chegaremos sempre onde nos aguarda o destino: com um tapete de serapilheira a indicar que a nossa casa é aquela onde existe um pedaço vitalício de paz. Por isso, vai. Ainda que partas hesitante. Porque do outro lado da porta há um universo à tua espera.

Eu sei que foram vários anos a lamber as feridas. A unir os estilhaços provocados por alguns desgostos amorosos. Mas não te prendas. Não te retraias. Não deixes de amar. Já entendeste que és bem mais feliz quando te permites abraçar a luz dos novos amanhãs. Dos recomeços. Da esperança. Só não edifiques castelos em falsas promessas. Mas também não te escondas na penumbra, na mágoa que te infligiram, por não te merecerem, quando diante de ti não se apresenta o culpado. E eu sei que tu, meu coração em desalinho, já descobriste que é injusto reduzir quem se aproxima ao filtro de um passado doloroso, do qual necessitaste de virar as costas. Porque, primeiro, é preciso fomentar o amor que nos vem do âmago. Envolvermo-nos no seu regaço. E, posteriormente, alargá-lo a quem vem por bem. Nesta rota curvilínea, há muitos rostos que não nos proporcionam conforto. Contudo, isso não é o fim. O teu lamento é válido, mas é preciso continuar. Remar contra a maré. Uma vez que, para lá do horizonte, há uma história a nascer.

Cresceste a ouvir que todas as cartas de amor são ridículas. E, hoje, escrevo-te para que nunca te esqueças que és tu que marcas o teu ritmo. Não os outros. Portanto, resguarda-te. Protege-te. Impõe-te. Mas não te desgastes para encaixares em verdades absolutas que não te pertencem, pois eles não sabem o que te corre no sangue: essa luz única que só pode brilhar com perseverança. Além disso, aprende a dizer não mais vezes. E não te sintas na obrigação de te justificares tanto, sobretudo, a quem já decidiu a sentença, sem saber escutar. São as tuas decisões, as tuas pegadas, as tuas intenções que te tornam no ser humano que és, não a imagem que tentam replicar. Então, segue adiante. Sereno. Confiante. De sorriso rasgado. E reergue-te de dentro para fora. Numa clara - e indispensável - declaração de amor próprio. Porque nós somos os sentimentos que emanamos para o mundo. E tu não podes querer ser menos que a mudança e o respeito que ambicionas.

Lembra-te: mesmo palmilhando a estrada sozinho, nunca estás só. E, um dia, quando estiveres resolvido, de luto feito e em paz, serás morada. Serás bagagem. Serás colo. E viverás fora da gaiola. Porque te descobriste. És independente emocionalmente. E estás consciente do teu valor. Meu coração hospedeiro, esta viagem é uma maratona. Não uma prova de velocidade. E, decifrando a sua cadência frenética, tudo tem uma razão. Sê paciente. Assim que alcançares o topo da tua montanha, entenderás que a escalada foi só um pretexto para, de metamorfose em metamorfose, seres um rasgo de magia em corpo - e alma - de mulher.

Da tua hóspede vitalícia,

Constança Mendonça

P.S. Se tudo falhar, confia, temos sempre asas para planar.