https://armonte.wordpress.com/2013/03/21/a-licao-do-mestre-cidadezinhas-de-john-updike/

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em primeiro de julho de 1997)

Uma dos privilégios da boa ficção realista é o de poder trabalhar com matéria histórica já muito conhecida e digerida e personagens já explorados muitas vezes, e mesmo assim extrair deles nova substância e colorido. É o que acontece com o mais recente romance de John Updike, Na beleza dos lírios [In the beauty of the lilies, 1996, tradução de Paulo Henriques Britto]. Repassando a história norte-americana neste século (a trama começa em 1910), o autor de As bruxas de Eastwick faz uma luminosa reflexão ficcional sobre a diluição da fé nos EUA.

Na primeira parte, o pastor presbiteriano Clarence Wilmor descobre não ter mais fé e desiste do sacerdócio. Enfrentando “a realidade inexorável do desaparecimento de Deus”, ele lança sua família na desgraça e na pobreza da cidade industrial de Paterson, agitada por intermináveis greves, como um Jó às avessas, que sofre não por causa da sua fé,mas justamente pelo motivo contrário (é engraçado como no livro fé e sucesso são equacionados o tempo todo): “Para ele, a vida com seus riscos e com a derrota final, estava nas verdades tranqüilas, implacáveis e impessoais que homens sem fé estavam a cada dia descobrindo no vasto mundo que se estendia fora dos muros apodrecidos daquele castelo em ruína. Para Clarence, os domínios do cristianismo haviam se transformado num castelo tão enclausurado, escuro e bolorento que mais parecia pertencer ao Demônio”.

Após sua morte, sua família se muda para uma cidade bem provinciana, Basingstoke, onde a narrativa vai se concentrar no filho caçula, Teddy, que rejeita toda a ideologia norte-americana de ter sucesso e se destacar em alguma coisa, resolvendo levar a vida mais apagada possível. Teddy desconfia tanto da fé quanto do cinema, que fora a última paixão de seu pai, e que está começando a se impor para a sociedade estadunidense avassalada pela Depressão e pela Segunda Guerra: “Esses astros levavam na tela uma vida sempre renovada, a cada filme, sem sofrer algum mal que deixasse marcas permanentes, mas Teddy sabia que o mal deixava marcas permanentes. O filme da sua vida era projetado uma única vez”.

Ironicamente, sua filha Essie se torna uma grande estrela do cinema nos anos 50. Possivelmente, esse é o momento em que o materialismo parece mais triunfante na narrativa, e a espiritualidade mais recalcitrante e deformada, pois é a grande magia do cinema que se encarrega de suprir as necessidades espirituais dos personagens em cena. Também é o momento em que Na beleza dos lírios roça o mundo dos best sellers da fórmula sexo-dinheiro-poder, porque é impossível fugir à vulgaridade do mundo descrito (o próprio esquema do romance, apresentando uma saga familiar, já o predispõe a isso): “Penteada, maquiada, caracterizada, sentia-se envolta numa armadura sutil, flexível e ao mesmo tempo impenetrável; aquela ilha iluminada de faz-de-conta, cercada de andaimes e fios e silhuetas de técnicos às voltas com equipamentos, era um receptáculo maior, uma espaçonave luminosa que a transportava, junto com os outros atores, a uma esfera de segurança imortal, onde nada mudava, nada era perigoso. Uma atenção cósmica pulsava em sua pele, tal como no tempo em que, ainda pequena, Deus observava cada movimento seu, registrava cada prece e cada anseio, sem deixar passar nada, cada fio de cabelo seu era contado”.

     A perícia de Updike faz com que Na beleza dos lírios escape dos clichês e do estilo best seller, mantendo a narrativa sempre como uma exteriorização dos pensamentos e das sensibilidades dos personagens, o que faz com que a primeira parte, a de Clarence, seja nitidamente a mais requintada, enquanto as outras progressivamente vão incorporando o entulho do empobrecimento espiritual e cultural.

O cinema às vezes aparece como uma potência mefistotélica, propondo a troca da alma por uma ilusão de sucesso, e às vezes aparece como um mero peão (tanto que Essie já se torna estrela em plena decadência da velha Hollywood, ameaçada pela televisão) no jogo da perda da transcendência em função da transitoriedade ilusória.

Na última parte, o filho de Essie, Clark, tenta recuperar a fé que o avô perdera, entrando para daquelas seitas doidas e apocalípticas que se recusam a pagar impostos e acabam sitiadas pela polícia e pelas câmeras de tevê: “Sua barba estava maior, e nas fotos que a AP tirou à distância ele parecia uma figura messiânica e sinistra, a barba e os cabelos longos soprados para o lado pelo vento hibernal. Não acreditava em tudo o que estava dizendo, mas adorava a sensação de estar falando naquele pequeno telefone, sabendo que suas palavras estavam sendo ouvidas com atenção por um mundo ávido de informações”.

Quem triunfa no final é o mundo do espetáculo, que gerou o cinema e a televisão e consumiu qualquer autenticidade da vida real, Tudo isso se concentra numa bela passagem, em que Essie recebe pelo rádio a notícia da morte do filho: “Seu coração subiu até a boca quando ouviu a notícia, mas ela própria não sabia se sua reação era sincera; olhou para seu próprio rosto no retrovisor para ver se era uma expressão de atriz. Não; aquela súbita cara de sofrimento era genuína. Seu rosto estava pálido como cera, um efeito que era impossível falsificar”.

John Updike se redime, com Na beleza dos lírios, da chatice do seu romance anterior, Memórias em branco. Pensando bem, o autor de Um mês só de domingos  e Roger´s version parece oscilar entre a contínua demonstração de exuberância e fôlego narrativo e uma tendência à aridez que aparece como sinal de perigo de quando em quando.

Mas seja qual for o saldo da obra de Updike, o que se impõe após uma primeira leitura das quinhentas páginas de Na beleza dos lírios é a certeza de que se trata de um livro importante, que preenche as qualidades essenciais da ficção realista: é abrangente, absorvente, contundente. Multiplica em reflexão o que tem em emoção. Achei o máximo.

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