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https://armonte.wordpress.com/2013/03/21/a-licao-do-mestre-cidadezinhas-de-john-updike/

https://armonte.wordpress.com/2013/03/21/uma-luminosa-reflexao-sobre-a-diluicao-da-fe/

https://armonte.wordpress.com/2013/03/20/coelho-continuara-ou-o-outro-de-philip-roth-john-updike-1932-2009/

[resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 28 de julho de 2007]

Em 1960, uma obra-prima, Coelho corre, deu largada à famosa série de romances que a princípio interrompeu-se em 1990, com Coelho cai, ganhando há pouco tempo seu epílogo definitivo: Coelho se cala. Paralelamente a essa monumental realização, a cada década, John Updike apresentava uma memorável reflexão ficcional sobre a perda de transcendência (seu grande tema) no contexto da sociedade norte-americana: nos anos 70 foi Um mês só de domingos; nos 80, Roger´s version (aqui no Brasil, Pai-Nosso Computador, dá para acreditar?); nos 90, Na beleza dos lírios. Parece que na década em curso o lugar será preenchido por Terrorista (“Terrorist”, 2006, em tradução de Paulo Henriques Britto).

Nele, aos 74 anos, um dos mais sérios candidatos ao disputadíssimo título de maior escritor em atividade nos EUA, ousa entrar na pele de um rapaz de 18 anos, com ascendência árabe por parte do pai (e irlandesa, pela mãe) e ver sua pátria pelos olhos dele, ao contrário dos vovôs que descreve no livro, os quais “tendo renunciado a qualquer pretensão à dignidade, se expõem ao ridículo com roupas justas de muitas cores e estampados diferentes… Já próximos da morte, esses idosos americanos abrem mão do decoro e se vestem como crianças de colo”.

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É uma paisagem espiritual desoladora aquela na qual se movimenta Ahmad Ashmawy, em New Prospect, arredores do Coração de Satã, a metrópole que perdeu suas torres. E é uma pena que Updike tenha escolhido um título tão infeliz, já que o predestinou ao reducionismo temático (e por certo à desconfiança: quem esse wasp pensa que é, propondo-se a discutir e, pior, representar em palavras, a fé islâmica, pensarão alguns) que o termo “terrorista” suscita. De fato, Terrorista conta como Ahmad, possuído pelo conceito de jihad, aceita conduzir um caminhão cheio de explosivos a serem detonados no Lincoln Tunnel. Não obstante, é muito mais o vácuo da vida contemporânea, a falta de perspectiva, o materialismo grosseiro que parece ter se tornado o ar que respiramos, a onipresença da televisão, da propaganda, do consumo, a solidão e indiferença mútuas até de membros da mesma família (vivendo como ovos que se tocam de leve, mas cada um contendo sua própria vida; aliás, esse último aspecto permite a Updike uma das cenas mais lindas do romance: a última conversa entre o mártir voluntário e sua mãe), o que escancaramos ao acompanhar Ahmad: a civilização ocidental que perdeu o decoro.

Em 2007, o paradigma dos romances modernos, Madame Bovary, completa 150 anos. Não poderia haver melhor homenagem a ele do que comentar o mais legítimo seguidor de Flaubert na atualidade, tanto da sua capacidade de criar com pormenores extremos o mundo chapado da mediocridade quotidiana, quanto do impulso (e talento genial), paradoxalmente inverso, de atingir o poético com esse material tão desprovido de Graça (no amplo sentido da palavra). E é por  isso que um romance que coloca o dedo na ferida da hora, a ameaça terrorista e a severidade fundamentalista como resposta ao capitalismo, deserto versus mercado, atinge seu ponto alto numa cena de amor, quem diria, entre adolescentes contemporâneos, e quem diria que eles poderiam ainda gerar lirismo e mesmo assim parecer tão reais para o leitor, inclusive na sua linguagem limitada?

Charlie Chehab, o homem que aproxima Ahmad do seu destino, quer que ele perca a virgindade antes da missão que lhe cabe, e o presenteia com os serviços de uma jovem puta, que é ninguém mais ninguém menos do que Joryleen, paixão do candidato a terrorista durante a high school. O que se passa entre eles (“Você pode acabar sendo a coisa mais próxima de uma noiva que eu vou ter na vida), o desalento que nos dá quanto ao futuro de ambos e dos jovens em geral, porém a intensidade da beleza do encontro deles, já faz valer a leitura de Terrorista.

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