(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de abril de 1998)
“Deus me impressiona, mas não tenho fé”.
São palavras que Judas dirige a Jesus num dos capítulos mais belos de O Ebamgelho segundo o Filho, de Norman Mailer. Um capítulo estratégico, que divide a narrativa em duas. No capítulo seguinte, Jesus realiza seu maior milagre (a ressurreição de Lázaro) e chegará a Jerusalém para cumprir seu destino.
É o próprio Cristo quem narra O Evangelho segundo o Filho. Acompanhamos a mesma história de sempre, pórém há um sutil debate do narrador com os que contaram e recontaram sua vida (Marcos, Mateus, Lucas, João). Além disso, o Jesus de Mailer está sempre em dúvida se as palavras que diz são inspirados pelo Senhor ou por Satã, se realmente ele está “inspirado” por ser Filho de Deus, se está ouvindo realmente o que deve dizer. Muitas vezes o que diz contraria diretamente suas emoções do momento. Depois de tudo consumado, Jesus acaba não conseguindo discernir ou avaliar qual o papel exato que desempenhou na história do mundo. Cosntata que esse mesmo mundo não melhorou em nada com seu sacrifício, não tem certeza sequer de que cumpriu sua missão, não sabe se Satã (que ganha um relevo especial nesse Evangelho peculiar) ganhou o jogo. Isso acaba dando à história um tom mais verossímil, mais próximo da relatividade das coisas que acontecem no reino deste mundo (e, na minha opinião, desperta mais simpatia): “Deus e Mâmon ainda disputam os corações dos homens e mulheres. Ainda assim, como a contenda permanece tão igual, não se pode dizer quem triunfou –o Senhor ou Satã. Continuo à direita de Deus, tentando cada vez ser mais sábio e pensando em muitos com amor… Meu Pai, porém, não me fala com freqüência… Suas guerras contra o Demônio tornam-se mais acirradas. Grandes batalhas têm sido perdidas. No último século deste segundo milênio sucederam-se holocaustos, conflagrações e pragas piores do que quaisquer outros já ocorridos. A grande maioria segue acreditando que Deus obteve uma grande vitória através de mim… nenhum outro profeta jamais teve tantos discípulos, tão prontos a morrer em seu nome”.
Temia-se que o imprevisível Mailer pudesse criar uma história de Jesus irreverente e caricata, nos moldes de Joseph Heller ou do Gore Vidal de Ao vivo do Calvário; ou que cedesse ao ímpeto caudaloso e informe de algumas de suas obras mais recentes (como Noites Antigas), ele que é um autor basicamente barroco e incandescente, e que está comemorando 50 anos de produção literária (estreou em 1948 com o fabuloso Os nus e os mortos).
Nada disso aconteceu. Fundindo os diversos textos evangélicos e usando seu tremendo sendo de poeta da prosa, Mailer nos dá o romance mais sóbrio e elegante já escrito sobre Jesus Cristo. Quase que se poderia usar a palavra “puro” para descrever um texto que flui com uma naturalidade incrível. Nem parece o autor que gosta de projetos ciclópicos, enormes e “impuros” (e sempre interessantes, quando não admiráveis), como os já citados Os nus e os mortos & Noites antigas (1983), além de A canção do carrasco (1979) e O fantasma da prostituta (1991), isso sem falar nas obras-primas mais curtas como Um sonho americano (1965) e Os exércitos da noite (1969), cujo virtuosismo extravagante nada têm a ver com a simplicidade fluente de O Evangelho segundo o Filho.
De qualquer forma, com relação à literatura, Jesus não pode se queixar. Pelo menos três dos maiores escritores do século,sem contar as versões cinematográficas antológicas de Pasolini e Scorsese, criaram grandes “evangelhos”: Nikos Kazantzakis, José Saramago, e agora Mailer com seu pequeno grande livro. Obras assim desafiam até mesmo quem não tem fé, operando o milagre de suspender a descrença e até fazer acreditar que a água pode se tornar vinho: “Diante de nós estavam depositados seis grandes jarros de pedra, todos com água, e, numa mesa ao lado, cachos de uvas vermelhas, uma das quais comi bem devagar, pensando intensamente no Espírito que residia dentro da fruta. Em verdade, pude sentir um anjo perto de mim. No mesmo momento, a água dos jarros se transformou em vinho. Eu não vi, mas sabia que tinha acontecido, apenas em virtude do paladar de uma uva e graças à presença do anjo. Ah, eu nunca me sentira tão perto do reino de Deus e crente de sua inesgotável beleza. Meu Pai não era somente o Deus da ira, mas podia oferecer uma ternura tão delicada quanto a que existe num suave toque de mão. Ao mesmo tempo, experimentei uma tristeza imensa, ante a visão de um banquete de que nunca participaria.”


