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Abr24
I - Jardim das Tormentas. 1913. Contos [onze].
Manuel Pinto
(...) «Os escafandros treparam aquela colina maravilhosa, deixando no campo de coral o rasto de passos sobre a neve. E, à entrada do Corredor de Pã, lobrigaram uma bateria inteira de olhos, vidrados e chatos como almofias mourescas, assestada para eles. Era ali que haviam caído os companheiros sob a chicotada tremenda dos cefalópodes. Os monstros lá estavam no covil, depois do banquete na carne dos homens.
A procurar acesso mais propício, os expedicionários abstiveram-se da escalada. E outra vez calcaram as cinzas esparsas dos estilos reais. Estavam obstruídos de vasa, de troncos e caibros decompostos, os largos pórticos; e, na ala direita do palácio, estátuas de homens ilustres mantinham um equilíbrio caprichoso, como desafio à vertigem, em seus nichos e balaustradas.
Impossibilitados novamente de avançar, em conciliábulo decidiram cometer a investida pelo vestíbulo Denon. Ora de rompante, ora marinhando pelo pedregal, treparam a rampa, alta de muitos côvados, entre cardumes de peixes que voavam. Cresceram para eles escorpiões fairando; a machete e chuço os destroçaram e, do lance, as águas se tingiram de sangue.
Por um declive rude e brusco de despenhadeiro, puseram pé na sala que fora o vestiário. O chão parecia calcetado de ossos. O pânico arrebanhara para ali os homens como em enxurrada, e seus esqueletos descreviam, na desordem e no montão, a instantaneidade do cataclismo. Jóias e oiro faiscavam sobre o ossário. Caveiras beijavam-se e caveiras mordiam-se. Tíbias cravavam-se contra o tórax como lanças. Num capacete de couraceiro viam-se entalados os quatro ossos do crânio. A morte arreganhava ali os seus variados rictos de cómica hediondez.» ...
(continua)
publicado às 18:49