image (1).jpg

IMG_20240113_144011 (1).jpg

(...) «Resolutamente meteram para a galeria. Nem frémito, nem sombra de vida. A tumultuária vida do mar suspendia-se nos umbrais daquela nave, escrínio da beleza pagã, rebuscada pelos homens de todos os tempos, através dos sulcos da gleba e no pó das cidades mortas. Os heróis e os seres divinos lá estavam erectos nos pedestais de pórfiro e de mármore. Mas não conservavam aquele rigor de formatura, diante da qual as gerações passaram contemplando. Vénus, Tritões e Martes apareciam baralhados em pávida assembleia. 
Os escafandristas removeram as estátuas por cima do ossário, que rangeu e se esfarinhou como grãos de trigo sob a mó. Feito o quê, voltaram dentro à colheita inspirada. E, subitamente, enxergaram no topo da escada, que a mão de Apolo lhes parecia apontar, a Vitória de Samotrácia, alando-se na augusta trirreme. E todos, à uma, se precipitaram para aquele símbolo que significava, submerso, um eclipse no prestígio dos homens.
Dos lados, porém, dois monstros marinhos surgiram fendendo a água e vomitando baba e fogo. Tinham cabeça e crinas de cavalo e barbatanas largas como asas de avião Junker. E, desenrolando-se de anéis duma grossura de robles, não tinha fim a cauda que espadanava entre os mármores.
Descarregaram os mergulhadores as espingardas e, abrigados por detrás de Antínoo e dos frisos de Delfos, despediram-lhes golpes furiosos de machado. E a cauda das serpentes, feridas de morte, derribou as abóbadas e pulverizou os mármores na água ensanguentada. 
Caíram alguns homens, mas os homens venceram. E a ilha verde dos Contins e dos Horner possuiu a Vitória Alada, a Vitória que significava o acúmen do génio helénico, e ficaria agora celebrando a continuidade heróica do esforço humano.
Rosa, que perdera José, as mulheres que perderam os amantes, desfaziam-se em lágrimas. Sereno por entre os soluços duns e os hosanas dos outros, Horner proclamava:
  -- É a vida! É a vida!»

   Paris, 1910-1912.