Fotografia da minha autoria

«A vida é meia hora»

O pontilhado de fragmentos que compõe a nossa história nem sempre é proporcional à estrada percorrida. No entanto, falando baixinho, há infinitas portas que podemos revisitar. Porque vamos guardando, nesta urgência de não perdermos detalhes, um pouco de tudo o que nos acontece - seja de uma forma literal, com objetos singulares, seja de uma forma figurada, através de memórias imprescindíveis. Por isso, somos colecionadores de uma vida que pretendemos que se torne eterna.

Há livros que têm perguntas maiores do que nós. E, ao ler Nem Todas as Baleias Voam, de Afonso Cruz, fui confrontada por um par delas, desarmando-me por completo, uma vez que me fizeram refletir sobre algo que nunca tinha equacionado. Nesta minha jornada, que se divide em 28 anos, há uma série de coisas - e pessoas - com um valor incalculável, não só por me transportarem para momentos especiais, mas também por me aproximarem de todos aqueles que fazem parte da fortaleza que me ampara e impulsiona. Como cada pedaço deles é uma peça que encaixa na minha essência, preservo tudo o que os representa, sem perder fulgor.

Quando concluí a leitura, passei a observar as caixas de sapatos com outro interesse. Porque, se soubesse que a minha morte estaria mais perto, não estou certa de saber o que colocaria lá dentro; não estou certa de saber quais seriam os objetos que faria questão de escolher para ficarem ali acolhidos - e escondidos. Será que a nossa vida caberia toda numa caixa de sapatos? Será que nos atormentaria mais ver o espaço a transbordar ou o vazio do que sobrasse? Não acredito que a quantidade signifique qualidade, mas será que não correríamos o risco de selecionar sem critério, acumulando o que não nos acrescenta assim tanto? É incrível como há sempre um apontamento forte de dúvida a envolver-nos, até que o controlo nos fuja das mãos. E dos pensamentos.

Este exercício foi, naturalmente, hipotético. Contudo, optei por objetos que, para além do seu valor sentimental, pudessem identificar-me. Se, um dia, abrissem a minha caixa, gostaria que me reconhecessem. Porque era sinal que nunca deixaram de me procurar. E que as minhas pegadas tiveram propósito. Assim, no seu interior, encontrariam:

- Polaroids com a minha família e amigos [porque são ponte e colo];

- As minhas fitas [com palavras que me sustentam];

- O poema da Gaviota [erro intencional, escrito com a Gémea];

- O bilhete do primeiro jogo que vi no Dragão;

- Uma mini pão de forma;

- O caderno com o meu manuscrito de poesia;

- O cachecol do meu afilhado;

- O lápis d' O Principezinho [oferecido pela minha afilhada];

- Os brincos que a minha avó me ofereceu;

- Os desenhos dos meteoritos [o estágio mais bonito];

- Os livros que mudaram a minha relação com a leitura;

- A minha máquina fotográfica;

- Os CD's dos D'ZRT, do Diogo Piçarra, d' Os Quatro e Meia, d' Os Aurora, do Fernando Daniel, do Noiserv e da Carolina Deslandes;

- Uma exemplar da Portugalid[Arte];

- A minha andorinha azul;

- Alguns dedais;

- Postais de aniversário;

- Uma carta [escrita por mim].

Não sendo possível encaixotar os abraços, colocaria tudo aquilo que pudesse ser uma representação aproximada desse manifesto de amor. E deixaria sempre um espaço reservado para acréscimos de última hora.