Um dos maiores problemas do “direitismo” chucro — como parece acontecer com tudo que existe pelas terras Banânicas Brasilis — é ignorar um dado cruel da realidade: a miséria humana.

Mesmo o direitismo mais católico parece esquecer disso, por mais que uma das bandeiras mais erguidas pelo catolicismo em todos os tempos seja o amparo aos miseráveis. Por mais que a doutrina cristã inclua um reconhecimento de sua miséria e um trabalho voluntário para diminuir essa chaga no mundo.

Quando alguém ousa falar de miséria, de sofrimento, de desigualdade, pessoal veste camisa canarinho e sai por aí berrando contra comunistas. Calma, meus Guevara às avessas!

Nem todo grito contra miséria e desigualdade é materialismo marxista safado (com toda redundância que essa expressão contém). Uma ótima prova disso é um livro que acabei de ler agorinha mesmo e que talvez se torne conteúdo no canal: Ressurreição, do russo Tolstói.

A obra é construída como um grito anti-sistema.

O protagonista Nekheliúdov constata logo nos primeiros capítulos que pode ter cometido um ato de horror na juventude: abusado de uma jovem protegida de suas tias que mais tarde se tornaria uma prostituta condenada por assassinato.

O seu abuso, conclui, seria o motor que levou a jovem à vida de prostituição e posterior queda nos tribunais. Esse evento — que presencia de uma posição ambiguamente privilegiada, pois é jurado no caso — desperta sua consciência e começa a recobrar como saiu do estado de jovem sonhador a acomodado. Recorda como abandonou tão facilmente suas convicções e de como praticamente esqueceu as misérias que causou. Assume então pra si a missão de resgatar aquela moça e também de reparar parte do dano que causou ao mundo, para isso há de usar todos seus recursos em busca da liberdade e felicidade da sua vítima e até mesmo entregar suas terras aos camponeses que durante tanto tempo explorou.

Com a habilidade digna de Tolstói, acompanhamos o protagonista em uma jornada que inicia na tumba fria e passeia pela mansão dos mortos. Começamos acusando-o de ser maluco e terminamos abraçados a ele, dando tapinhas nas costas pela incapacidade de fazermos igual.

É claro que há exageros nas sandices de Nekheliúdov, afinal é assim que ele é construído, extremo e maluco, mas conforme ele avança rumo à sua ressurreição ele mais aproxima-se de Deus e deixa pra trás o materialismo dialético que pode nos iludir nas primeiras linhas.

Claro que no tempo de Tolstói isso não deve ter passado em seus leitores, mas nós — filhos do século XX (muitos até do século XXI) — somos contaminados por essa doença do marxismo e tendemos a vê-lo em tudo. Por sorte, para afastar o fantasma do socialismo — esse sim, mais presente nos tempos do escritor russo — há um capítulo inteiro em que o protagonista trava um debate que diferencia seu altruísmo do materialismo rasteiro.

Seu motivo para reparar as máculas causadas não é a busca por uma mera igualdade, mas sim o cumprimento de um preceito transcendente: o amor por Deus e — como fazemos com tudo que amamos — a busca pela igualdade com o Criador.

O mundo é injusto e inúmeras instituições parecem mesmo ser montadas para perpetuar injustiça e desigualdade. Para pisar os pequeninos e louvar os grandiosos. Reconhecer isso não é defender uma cartilha foucaultiana e muito menos vestir uma camisa de Marx com chapéu de festa de aniversário. Reconhecer isso é humano, lógico, cristão.

Mais uma vez, é da literatura que recebemos as melhores mensagens.

Que Nosso Senhor nos abençoe e tenha Tolstói em um bom lugar!