Por José Reinaldo do Nascimento Filho

ego

“O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde.” (Zuenir Ventura)

Diante do Espelho

“Meu Deus, concedei-me a mediocridade”, pensava Alex, enquanto sorria para uma platéia que o aplaudia de pé. Essa foi sua última apresentação na cidade. Sucesso de critica e público. “Novo Shakespeare”, era o que falavam na multidão.

– Algumas palavrinhas, apenas umas palavrinhas – gritavam alguns repórteres, enquanto tentavam atravessar uma multidão que se aglomerava em frente ao camarim.

Pedindo desculpas para todos, e aos cuidados dos seguranças, Alex seguiu em direção a seu quarto. Para essa noite estava programada sua participação em um programa local; um Talk Show ao estilo David Letterman.

– Pronto para entrevista? – perguntou seu produtor.

– Nasci pronto, não é assim que falam por aí? – disse Alex com um sorriso cansado e sem expressão. – É realmente necessário participar “disso”? Porque… pelo amor de Deus! Ele é burro e gordo. Não sei como as pessoas admiram essa criatura. Seus livros são simples e enfadonhos; Acho que fará perguntas do tipo: Qual seu signo? Para que time torce? Algum livro de cabeceira? Não vai me acrescentar em nada, apenas…

– Dinheiro meu amigo, dinheiro. Temos contas a pagar, lembre-se. Responda da maneira que quiser, Alex, apenas responda; vai ser ótimo para sua imagem e para nosso bolso.

– Atrofia cerebral, era o que eu iria responder.

– Por favor Alex, se não por você, por mim.

– Certo. Farei esse esforço.

– Isso meu garoto, é assim que gosto de ouvir.

***

-… foi então que Danton disse: “É estranho, o verbo guilhotinar não se pode conjugar em todos seus tempos; pode-se muito bem dizer: serei guilhotinado, serás guilhotinado, mas não se diz: fui guilhotinado.”

– Ele é ator, diretor, roteiristas, filósofo, poeta, músico… Acho que é melhor chamar logo essa “figuraça”: Venha para cá, Alex Kharinoff.

– “Figuraça?” – pensou Alex, enquanto andava na direção do apresentador. – Ótima piada! Muito boa mesmo.

– Boa noite, Alex. É uma honra recebê-lo no nosso programa!

– Eu sei disso… Ha,ha,ha,ha,ha. Estou brincando, estou brincando.

– Sempre espirituoso! – sorria o gordo apresentador, com sua voz grossa e glutônica. – imagino que você lê as criticas que os jornais fazem da suas peças e livros, concorda? Algumas revistas de diversidade escreveram algumas coisas, um tanto pesadas, diria eu. Sobre Alex Kharinoff elas afirmam: Imaturo, antipático, arrogante, prepotente, vaidoso, amargo, chato e orgulhoso. Por favor, responda com sinceridade, o que você pensa quando ouve ou lê algumas dessas afirmações injuriosas?

– Bem… “Eu sou único, vocês são todos”.

– Dostoievski! Notas de Subsolo! Você é uma “figura”! Mas conte para nós um pouco da sua história, por favor.

– Huummm, minha história? Bem, então está certo: aos 2 anos de idade aprendi a ler; aos 5, escrevi meu primeiro conto e compus minha primeira música; aos 10, lia Aldous Huxley e Dostoievski; aos 12, comecei a escrever resenhas para o jornal da minha cidade. Acho que minha primeira resenha foi sobre o filme Casablanca; aos 15, escrevi minha primeira peça teatral; aos 20, viajei para Inglaterra, onde apresentei a minha adaptação da obra Macbeth; aos 25,…

– A obra original não foi suficiente? – perguntou sorrindo, o apresentador, seguido pela platéia, que o acompanhava às gargalhadas.

– Posso continuar? Obrigado. Aos 25 anos estréio, com muito sucesso, meu monólogo sobre o “Raciocínio da razão, e a fragilidade da natureza humana”. Bem, acho que é apenas isso.

– “Apenas isso”. Vê-se logo que é humilde. Incrível! Simplesmente incrível! Onde você busca inspiração? Quando está escrevendo, quem ajuda nas correções, sugestões, críticas?

– “Ich Dick” (Em alemão – “Eu me basto”).

– Não tão humilde dessa vez; mas curioso. Fale um pouco do “Raciocínio da Razão”.

– Em termos lógicos, o “raciocínio da razão” – Alex respirou fundo – é a operação pela qual a inteligência, partindo de uma ou mais relações conhecidas, afirmadas ou negadas, conclui uma nova relação que nelas estava implícita, contida e imanente, delas derivando, logicamente, novo juízo de valor. De uma maneira mais simples: é a operação mediante a qual de dois juízos dados se tira um novo juízo. Meu monólogo conta a história de um morador de rua que descobre ter uma doença incurável, e nesse instante ganha, inexplicavelmente, a capacidade de raciocinar sobre suas condições. Começa a discutir as idéias correntes ao seu tempo, e sua natureza. Temas como política, filosofia, sociedade, movimentos sociais; e claro, não poderia faltar, Deus. É Mais ou menos isso, uma tentativa de encontrar um “novo valor para si, e para sociedade”. Vocês precisam assistir a esse monólogo. A melhor parte é quando, diante de Deus, o personagem afirma: “Ich Dick”.

As pessoas na platéia ficaram com os olhos vidrados em Alex; alguns riam; outros faziam movimentos com as mãos, no sentido de bater palmas; todos estavam atônitos com as suas palavras. “Pobres criaturas! Como é fácil entretê-las”, pensou Alex, ao perceber a inquietação do público.

– Lendo algumas críticas, aliás, muito positivas, aqui diz que seu personagem, mesmo possuindo tamanha capacidade racional, continua com o “mal que prejudica toda a humanidade: a superstição”, palavras do personagem aqui. Interessante isso: mesmo possuindo todos os instrumentos intelectuais para não ser supersticioso, continua sendo. Pode falar um pouco sobre isso?

– Existem pessoas que são capazes de raciocinar sobre o próprio raciocínio, como habilidade separada, concorda comigo? Conheço poucas pessoas assim – disse Alex, enquanto sorria. Apesar dessas possibilidades intelectuais, as pessoas continuam acreditando em um “deus”, quê, na minha humilde opinião, não passa de uma “criança com uma arma gigante”. Se vocês ainda não acordaram lembrem-se: nós somos nosso próprio barro.

– Caro Alex, no nosso programa tento respeitar a diversidade, por isso, peço encarecidamente: não extrapole. Somos um país democrático, respeitamos a multiplicidade – a platéia começa a gritar ao mesmo tempo em que batia palmas. – Voltando para a entrevista. Você disse que conhece pessoas com essa capacidade. Pode exemplificar? – o apresentador estava na expectativa de Alex se dar como exemplo.

“Meu Deus, concedei-me a mediocridade”, pensou Alex. – Machado de Assis, Dostoievski e Thomas Mann, respondeu.

– Huuum, ótima resposta. Eles parecem ter sido ótimos mestres para você, não é verdade?

“Sinto-me às vezes como o personagem da novela Zapíski iz pódpol’ia. Acho que fui jogado aos porcos”, pensou Alex, enquanto olhava para seu produtor na platéia e para os céus, como se pudesse interrogar o próprio Deus. – Sim, nossa! Eles são… Para mim… Como dizem, gênios.

– Você falou Machado de Assis, Dostoievski e Thomas Mann. Entre eles há alguma preferência?

– Humm… “Zapíski iz pódpol’ia”, de Dostoievski. Sem dúvida alguma, sua melhor obra. Às vezes me sinto como seu personagem.

– “Zapíski iz pódpol’ia”, Notas do subsolo, acertei? Você leu no original?

– Sim, li. As traduções sempre trazem inconsistências. É algo semelhante àquela afirmação: Filosofar? Somente em alemão, Procuro ler suas obras em sua língua de origem.

– Ah, sim. Claro. Mas e quanto a Crime e Castigo, Os irmãos Karamazov? São os clássicos desse autor, o que me diz deles – aqui o apresentador começa a alfinetar Alex. Este percebe, em suas respostas, certa arrogância.   

– Ótimas obras. É, é isso. Não é o melhor dele, como já falei.

Nesse instante a platéia começa a vaiar Alex.

– Por favor, por favor. Vamos respeitar as opiniões. Ainda na mesma revista de crítica, alguns especialistas afirmaram quê, apesar de bons, sua escrita é simples e não apresenta nenhuma erudição. Concorda com a afirmação?

– Procuro entender essas pessoas da seguinte maneira: alguns escritores – 99% deles – maquiam sua escrita com uma erudição ignorante. Criam personagens que não passam de representações do seu eu poético. As pessoas ficam impressionadas com pouca coisa; suas mentes fracas e comuns nunca gozaram de algo realmente refinado. Isso eu falo com autoridade.

A platéia repete os mesmos burburinhos.

– Por favor, por favor! É a opinião dele, temos que respeitá-la. Mas me explique Alex, num artigo publicado no New York Times, você afirma que há “inocência na Bíblia” e ridiculariza a hipótese dos judeus como povo escolhido. Poderia comentar um pouco sobre essas afirmações?

– Não, não poderia. É por isso que escrevi para um jornal estrangeiro, porque sei da fragilidade do povo brasileiro. Esse povo ainda não está pronto para entender raciocínios tão avançados. Sem ofensas aos presentes, claro. Eu tenho absoluta certeza que as pessoas aqui são todas capazes de raciocinar sobre o raciocínio. Não tenho razão?

Mais uma vez a platéia começa a vaiar; dessa vez de pé.

– Eu sabia que isso iria acontecer! disse Alex, enquanto se levantava apertando as mãos do apresentador.

– Uma última pergunta, por favor. Pode ser?

– Sim… claro, diga. Mas seja breve.

– Se você fosse Deus…

– Fosse!?

– É… É isso aí… Hoje conversamos com o mais “novo Shakespeare”, Alex Kharinoff. Boa noite, senhoras e senhores. E lembre-se que amanhã teremos um encontro muito especial com os cantores Latino, Netinho e Belo. Esse foi mais um programa do…

FIM

Assim que comecei a idealizar minha historinha sobre o meu pecado capital, pensei em escrevê-la em forma de drama; algo mais trabalhado e concreto, nos quais, personagens complexos (como se eu tivesse capacidade para isso; ou até mesmo tempo) iriam discutir problemas afetivos, e teriam, no pecado do orgulho, força motriz para as suas discussões. Isso não aconteceu. Ao contrário, resolvi criar uma historinha onde meu personagem possuísse algumas características que poderiam ser encontradas em uma pessoa orgulhosa, nesse caso, a vanglória, alimentada pelo excesso de inteligência e de conhecimento. Mas tudo isso seria representado através de personagens caricaturados, e não por meio de uma historia séria e maçante. Caso exista algo de interessante nessa história, é o porquê de apenas o nome do personagem ser mencionado.

Sobre o pecado do orgulho, Pe. Paulo Ricardo afirma: ”O orgulho independe do público”; “O orgulhoso se louva”; “O orgulhoso se atribui a grandeza, não procurando o louvor dos outros”; O orgulhoso gosta de confronto; hierarquia (“Você sabe com quem está falando?”). “Critica sistematicamente as pessoas”.

Minha metodologia para a construção dessa “figura” foi simples: pensar em algumas pessoas (professores, colegas, amigos, famosos) com características semelhantes e depois caricaturá-las. Não procurem reflexões sérias nesse pequeno texto. Procurei criar algo divertido, tanto para mim quanto para vocês.

Para uma reflexão sobre esse pecado aconselho acessar o site http://www.padrepauloricardo.org/site/?p=201. Aqui você encontrará palestras dos mais diversos temas.