
por José Leonardo Ribeiro Nascimento
Sou um homem ridículo.
É assim que começa este conto, que li pela primeira vez quando entrei na Universidade, em 1997. Como falei no texto anterior, naquele primeiro ano li bastante. Todos os dias visitava a seção de literatura, procurando e folheando, na difícil tarefa de escolher qual livro ler. Foi naquele ano que li Quo Vadis?, de Henryk Sienkiewicz, Fome, de Knut Hamsun, dos quais falei no primeiro post desse blog, além de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, Ciúme da Morte, de L. Romanowski, dentre tantos, tantos outros.
Na época, com 16 para 17 anos, eu estava maravilhado com a quantidade de livros e de boas opções. Queria descobrir os autores clássicos, queria ler aquelas obras de que tanto ouvia falar. E assim cheguei a Dostoievski, escritor russo, nascido em 1821 e morto em 1881, considerado por muitos um dos maiores romancistas de todos os tempos.
Era natural que, descobrindo-o, começasse pelas suas obras mais conhecidas: Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov. Mas acontecia comigo também algo curioso, fruto, sem dúvida, daquela vaidade que vem da imaturidade: eu não queria conhecer os grandes escritores pelos seus maiores livros. Parecia lugar-comum demais! Com Stendhal, por exemplo, ao invés de começar com “O Vermelho e o Negro”, comecei com “A Cartuxa de Parma”. Era como se, ao ler as “menores obras” dos grandes escritores, eu me afirmasse como um verdadeiro amante da literatura, e não apenas um aventureiro querendo colecionar clássicos. Que ridículo!
O que importa é que o primeiro livro que li de Dostoievski foi “O jogador”, em uma edição que, ao final, trazia o conto “O sonho de um homem ridículo”. Conto curto, mas que me marcou de maneira indelével. A impressão que guardei durante todos esses anos da história daquele homem ridículo, que pensava em se matar, era de que sua leitura deveria ser obrigatória para todos. Quanta amargura, e ao mesmo tempo, quanta esperança!
Este homem, cujo nome não nos é revelado, faz questão de dizer que é e sempre foi ridículo. E vai adiante: ele tem, mais do que qualquer um, consciência disso. Sendo ridículo e vivendo como tal, ele se descobre indiferente a tudo, a ponto de dizer:
“Pouco a pouco ia vendo e sentindo que não havia nada fora de mim”.
Uma pessoa frustrada, sem amor, tal como milhões que encontramos por aí. A diferença é que, na maioria das vezes, esses milhões lutam para esconder a sua frustração e a sua falta de amor, usando uma máscara de felicidade, como se tudo estivesse bem.
Este homem se vê tão sem horizonte, tão sem expectativa, tão vazio, que resolve se matar. Ele faz questão de lembrar, entretanto, que até a isso ele é indiferente.
E o sonho? Onde ele entra nessa história?
O homem ridículo havia decidido se matar numa determinada noite que, para ele, foi a noite mais escura de todas. Naquela mesma noite, na rua, ele encontrou uma garotinha desesperada, implorando por ajuda. Ele ignorou-a completamente, tendo inclusive rechaçado-a com bastante aspereza. Já em seu apartamento, segurando o revólver com o qual iria se matar, acabou por sentir compaixão dela, e foi por conta deste sentimento que ele não se matou, adormecendo em seguida.
Ele sonhou com a sua morte e com um fato absurdo: ele é levado para outro planeta, a milhões e milhões de anos-luz, uma cópia da Terra, mas “a Terra não manchada pelo pecado original, na qual viviam homens que não tinham pecado”. Lá ele passa por uma experiência inigualável: o amor puro, sem interesses, sem maldade, sem perversidade, sem ciúmes, sem inveja.
Após um fato decisivo, ele toma consciência de que a Terra – a nossa Terra – já foi um lugar como aquele, até que entrou a mentira, mãe de todos os pecados, e com ela todas as barbáries que existem no mundo.
De um homem indiferente, disposto a se matar sem qualquer razão aparente, ele passa a se sentir amargurado, por saber que ele, só ele, sabia a verdade. Chega a afirmar:
“Eu não quero nem posso crer que a maldade seja o estado normal do homem”.
Não é difícil perceber a mensagem religiosa do texto. Talvez por isso mesmo ela tenha me intrigado e encantado tanto. Quando descobre a “verdade”, ele se diz impelido a anunciar a “boa nova”. Os cristãos sabem quem é a Verdade, e que nós, que a conhecemos, devemos anunciar a Boa Nova.
A angústia do homem ridículo é pelo fato de que ninguém acredita nele, por mais que exponha seus argumentos. Ele sabe, portanto, que a humanidade está condenada pelos seus próprios erros, e ele, por um motivo especial, tem uma responsabilidade muito maior.
“E, no entanto, como isso seria simples! Num dia, numa só hora, tudo mudaria. Ama a Humanidade como a ti mesmo! Isto é tudo; isto é tudo e nada mais é preciso.”
Neste pensamento está contida parte do Maior Mandamento que Jesus nos deixou:
“Amar a Deus sobre todas as coisas e AMAR AO PRÓXIMO COMO A SI MESMO!”
Percebe-se então por que este homem está desesperado. Ele não compreendeu a importância da primeira parte do mandamento. Para ele, a solução do mundo depende, única e exclusivamente, do homem. No final do texto ele afirma que a causa de todos os problemas é o fato de que os homens colocam o conhecimento da vida acima da própria vida; o conhecimento da lei da felicidade acima da própria felicidade. Bastaria, portanto, que os homens se preocupassem em aprender a amar, e não em aprender sobre o amor.
Como aprender a amar? Com quem aprenderíamos? O pensamento de que o homem não é mau por natureza é verdadeiro, já que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Este amor puro, o amor verdadeiro, que o homem ridículo vivenciou em seu sonho tem uma origem: Deus, que é Amor. Só imitando-o poderemos amar de verdade.
Quando decidi escrever sobre este conto, imaginei que ao relê-lo poderia me decepcionar, já que aquela impressão tão boa sobre o texto foi gravada no coração de um garoto de 16 anos, inexperiente e muito empolgado com a literatura.
Após essa segunda leitura, afirmo mais uma vez: O Sonho de um Homem Ridículo deveria ser lido por todos, pela boa literatura que é, mas, principalmente, pela lição que nos traz.
Há tantas marcas da perversidade humana no mundo que é difícil pensar no paraíso aqui na terra: milhões morrendo de fome enquanto se constroem ilhas artificiais para satisfazer as vaidades de algumas dezenas de pessoas; busca-se o lucro de forma cruel e vil, passando por cima da dignidade humana, da natureza, da ética; aqueles que deveriam representar o povo utilizam-se de seus cargos e privilégios para seus interesses, legislando, administrando e julgando em causa própria.
Motivos para amargura não faltam, é verdade. Mas a frase final do conto, para mim, representa uma pista do que deveríamos todos fazer para que o mundo fosse melhor:
“Mas ando ainda à procura daquela jovenzinha… E continuo, continuo…”
É o mea culpa do homem ridículo. Se não nos faltasse amor ao próximo, se estivéssemos sempre dispostos a sair do nosso comodismo para ajudar a quem precisa, o mundo seria bem diferente.
O sonho de um homem ridículo é classificado como um “conto fantástico”, ou seja, só existe na imaginação. Mas, finda a sua leitura, fico com a impressão de que há muitos homens ridículos neste mundo, e me parece que eu mesmo sou um deles.