Chegávamos bem cedo para pegar um lugar com uma boa visão do campo e ainda dava tempo de ver as famosas preliminares. Não, não é o que você está pensando. Eram jogos que rolavam antes do jogo principal, como forma de entreter o público enquanto a partida não começava.
Maria Paula Curto *
Esse domingo de rodadas finais dos campeonatos estaduais me fez lembrar da minha época de menina, quando eu acompanhava meu pai aos estádios de futebol. Assistia desde os clássicos Flamengo X Vasco ou Vasco X Fluminense no Maracanã até um Vasco X Bangu em dia chuvoso em São Januário. Não sei se porque eu era filha única e meu pai não tinha outra opção familiar para levar ao estádio, mas ele nunca deixou de me convidar porque eu era menina. Eu também nunca vesti rosa, lamento informar. E olha que ele não ia sozinho não. Tinha sempre companhia. Dois amigos em especial eram presença constante. Um deles, falecido ainda jovem, era o bonitão da turma. Olhos verdes, moreno, sempre muito arrumado e perfumado. Fazia sucesso. Todo vaidoso, ia aos jogos de calça social, de pregas, cinto e sapato de couro combinando e, o toque final: uma capanga na mão! Vocês não sabem o que é isso? Não? Deem uma googlada. Era surreal. Mas ele se sentia bem assim, e é isso que importa. Deixemos o moleton, o jeans furado (o furo ainda não era moda, ok?) e os julgamentos para nós, pobres mortais. O importante é ser feliz, certo?
O outro companheiro de estádio, vivo e grande amigo até hoje, parecia um gringo recém-chegado dos USA diretamente para a experiência antropológica do futebol brasileiro: bermuda, camiseta, tênis e a meia esticada até o meio da canela, mostrando aquela pele mais branca que o dente da Xuxa…Um cara genial, inteligentíssimo e de um humor ácido e certeiro, daqueles que a gente não encontra mais. Esse tinha uma característica bem peculiar: era extremamente supersticioso. Nós tínhamos que entrar pela mesma porta, subir pelo mesmo lado da rampa, beber um café aguado na mesma cantina, servido pela mesma moça, senão, algo poderia não dar certo para o Vasco. É, pensando bem, acho que ele tinha razão. Vai ver que é a ausência desses nossos rituais que mudaram o destino do meu Vascão, hoje na segunda divisão novamente… Só para vocês terem uma ideia do nível de superstição dele, uma vez ele levou um menino, seu vizinho, que era o único vascaíno da família, ao Maracanã. O Vasco perdeu. Na semana seguinte, levou novamente. O Vasco empatou. Ele não permitiu mais que o menino fosse. Até que, nas palavras dele, “o coitado usasse uma meinha de lã para deixar de ser tão pé frio”… Aliás, eu só conseguia ir, pois, segundo ele, meu retrospecto era positivo. Ainda bem, pois a alternativa de distração seria TV aberta com o Silvio Santos…

Acompanhando esse trio ternura, acabei aprendendo bastante sobre futebol. Desde a escalação dos times, passando por tipos de dribles e passes, como caneta e chapéu, até, pasmem: impedimento. Minha mãe ficava louca com isso. Passou 87 anos da vida tentando entender por que o pobre coitado do jogador estava impedido de fazer o gol. Ela dizia: “ah, tadinho, deixa ele…deve ter ficado tão frustrado! Vocês são muito estraga prazeres com essa regra”. E ainda ficava espantada ao me ver gritando, antes mesmo do juiz apitar: “onde estava ele Mario? Na banheiraaaaa!” Desculpe, sei que a maioria não entendeu, mas essa é para o time dos 50+.
E o Maracanã lotado? Era algo de outro mundo. A arquibancada, de cimento, não tinha “cadeira” ou lugar marcado. A gente ia chegando e sentando. E quando era jogo final, valendo o título do carioca, era tanta gente, mas tanta gente, que a lei da física ali não valia mais. Dois corpos, às vezes três, ocupavam o mesmo lugar no espaço. Mas era lindo. Juro pra você que Maracanã lotado, na década de 80, não tem preço. Era época da famosa “geral”, onde a galera assistia em pé, numa espécie de “fosso do estádio”, quase na mesma altura do gramado, que muito provavelmente não deixava ver muita coisa (o povo sempre se concentrava, quando dava, atrás dos respectivos gols, na tentativa de ver pelo menos a pelota balançando a rede), mas que certamente era emoção garantida. E detalhe: com todo mundo junto e misturado. Loucura, não? Mas dava certo e era bonito de se ver. Agora, fico imaginando que o que ganhamos em estrutura física – principalmente após as reformas para a Copa de 2014 – perdemos em magia. E toda mistura passou a ser arriscadamente evitada.
Chegávamos bem cedo para pegar um lugar com uma boa visão do campo e ainda dava tempo de ver as famosas preliminares. Não, não é o que você está pensando. Eram jogos que rolavam antes do jogo principal, como forma de entreter o público enquanto a partida não começava. Vejam, à época, não existiam as redes sociais, nem internet e nem ao menos os nossos inseparáveis celulares. A gente tinha que se divertir, pasmem, conversando com os outros!!! E não necessariamente com um outro já amigo ou conhecido. A gente se aproximava do desconhecido e iniciava um papo que poderia até se transformar em grandes amizades futuras. Porque não tínhamos telas para nos esconder, nem câmeras para as famigeradas selfies, trabalhávamos a nossa self nos permitindo ouvir e trocar com o outro. Não postávamos fotos com um sorriso montado na face, buscando muitos “likes”, mas sorríamos e curtíamos, de verdade, aquele momento. O prazer era vivido no aqui e agora e não se baseava em números de seguidores.

Para passar o tempo e matar a fome (afinal, essa espera poderia levar umas 4 horas), não havia comida gourmet, nós encarávamos o famoso cachorro quente do Genial, que vinha somente com o pão bem macio (para não dizer borrachudinho), uma única salsicha e nada de molho. Para tornar a coisa um pouco mais úmida e “comível”, jogávamos litros de mostarda e ketchup. Nem maionese, nem purê, muito menos batata palha, mas eu afirmo: não havia cachorro quente mais gostoso do que aquele… Para beber, um refrigerante nada diet (longe de existir algo assim) e para adoçar a boca, um bom e velho picolé. E não, nem tente sonhar com um Chicabon. Quando muito, o de limão. Mas quase sempre só tinha de coco. Acho que era o que encalhava na praia e então, o fabricante resolvia baixar o estoque nos estádios.
Tudo isso era a moldura para o grande espetáculo. E que espetáculo. Cada gol marcado era uma apoteose! Bandeiras tremulando, braços para o alto e o Maraca literalmente balançava. Gritos de delírio lavavam a alma de cada torcedor. Hoje, não frequento mais estádios e já nem vejo jogo pela TV (que é muito mais sem graça do que ao vivo). Mas confesso que o futebol ainda me encanta. Um jogo em que um cara pequeno, atarracado, de pernas tortas pode ser um dos maiores astros que esse planeta já viu. Que um baixinho, com seus 1,68m, consegue fazer gol de cabeça num time de escandinavos. E que sim, com uma dose de genialidade e muita malícia, se faz gol com a mão – a mão de Deus – e se vinga um país inteiro em apenas 90 minutos!
Futebol é talvez o único jogo em que a possibilidade de zebra é real. Quem poderia imaginar que a seleção de 82 iria perder para a Itália, com 3 gols de um Paolo Rossi que nunca mais brilhou, além daquele único e fatídico dia? Um jogo em que nem sempre quem atua melhor, vence. Tanto faz se uma equipe dominou o jogo, se bateu cinco bolas na trave, se teve 35 escanteios. Basta um simples gol – de cabeça, com o bico da chuteira ou até de barriga – e fim, tudo acabado. Injusto? Como a vida. E por isso mesmo, tão belo.

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.