Minha mãe dizia não entender como eu gostava tanto de um jogo tão injusto. Eu respondia que era exatamente por isso, por essa “injustiça”, que eu amava o futebol
Maria Paula Curto *
Eu jurei que não falaria dessa Copa do Mundo. E não vou falar dela. Não quero aqui discorrer sobre estádios gigantescos, com ar-condicionado (já parou para pensar a quantidade de energia necessária para esfriar um estádio de futebol? Eu tenho dificuldades em manter a sala de casa com temperatura mais amena e não entregar meu rim ao pagar a conta de luz…), construídos a base de areia, ferro, suor e sangue. Sangue da exploração que, infelizmente, não acontece apenas no Catar. Mas em toda parte do mundo. Inclusive ali, na esquina. A gente é que não quer ver. E disfarça as feridas internas soltando a voz contra os sheiks alheios. O deserto da indiferença está bem mais próximo do que imagina a nossa vã filosofia…
Eu quero é falar dessa paixão nacional. Não, não é a cerveja nem a cachaça (que também têm seu valor), mas desse esporte que movimenta – e paralisa – esse país. O futebol. Quer saber? Eu amo futebol. Sim, parece estranho, né? Afinal, sou mulher. Não deveria ser muito chegada nessas coisas ditas “masculinas”. Bobagem. Torcer para um esporte é um dos grandes prazeres da vida. E se for uma torcida saudável, buscando a beleza do jogo, daquele verdadeiro balé que acontece durante um pouco mais de 90 minutos, entre as quatro linhas do campo, pode ser uma verdadeira catarse. O momento de extravasar toda aquela emoção que ficou civilizadamente contida ao longo dos meses, o grito que não podemos dar na sala de aula, e muito menos no escritório, com o chefe. Então, que venha a Copa do Mundo! E com ela, a possibilidade de botar para fora a lava de gritos – ou sussurros – represada nesses últimos tempos. E para nós, brasileiros, então, haja lava, viu?

Depois de dois anos de pandemia, quatro de Bolsonaro, e seis de recessão, haja Lava!: Foto: reprodução
Minha mãe dizia não entender como eu gostava tanto de um jogo tão injusto. Eu respondia que era exatamente por isso, por essa “injustiça”, que eu amava o futebol. Como assim? Ela retrucava. “Tem um time atacando, atacando, o tempo todo. Os coitados chutam a gol de minuto a minuto e nada. É bola para fora, é bola na trave, é goleiro defendendo. Aí vem o time adversário, que estava sem fazer nada o jogo inteiro, dá um chute e pronto: Gol! Não é justo isso. Fora que tem o tal craque do time que passa o tempo todo paradão, lá perto da pequena área, só falta tirar um cochilo e, de repente, sobra uma bola para ele e toma! O desgraçado faz o gol. É muita injustiça num jogo só.” Mas para mim, essa é justamente a graça da coisa. A imprevisibilidade. A questão do oportunismo. Da visão do jogo. Entender que o craque não é o que fica mais tempo com a bola, mas o que consegue ver a jogada quando ela ainda não aconteceu. O que consegue se antecipar a ela. À oportunidade, à meta, ao momento. Ele sabe trabalhar o tempo e os espaços vazios. Pois é exatamente ali onde o jogo acontece: nos espaços vazios entre uma jogada e outra, entre um jogador e outro. Tal qual a vida.
E o futebol tem várias características lindas. Uma delas é que é jogado com os pés. Na grama. Isso remete à nossa ancestralidade, à nossa animalidade. Os pés, diferentemente das mãos, são muito pouco controláveis. Ou treináveis. Por isso, pode-se até treinar táticas de jogo e preparação física, mas um craque de futebol é alguém que “já nasce pronto”. Havia um técnico de futebol argentino, chamado César Menotti, que ao ser perguntado qual o segredo do sucesso para montar um belo time de futebol, respondeu que, se a gente pegar 100 meninos com mais de 1,90m de altura e treinar muito, certamente de lá sairia um belo time de basquete. Ou de vôlei. Mas com o futebol era muito diferente. Afinal, se aparecer no treino um rapaz baixo e franzino, de pernas bem tortas, parecendo quase um aleijado, cuidado, não o recuse de cara. Ele pode ser um Garrincha.

O Anjo das Pernas Tortas foi destaque brasileiro em 1962. Colagem: Thaís Helena Moraes.
E ainda sobre a questão de ser jogado na grama e com os pés, o futebol mexe com as nossas entranhas, com aquilo que não nos é racional, com algo que vem dos nossos instintos mais profundos. Talvez por isso, a gente veja torcidas tão extremas e até violentas. Mesmo em países desenvolvidos e supereducados como a Inglaterra, os hooligans nasceram. E cá entre nós: vocês já viram torcidas de vôlei brigando entre si??
Outra coisa interessante no futebol é que ele é o único esporte que permite o empate. O zero a zero. Só para nos jogar na cara que a gente não vai vencer sempre. Nem precisa. Muitas vezes, o empate seria mais do que suficiente (a Copa de 82 que o diga…). E que a ânsia da vitória pode abrir brechas para uma derrota impensável. Que não precisa fazer gol bonito. Vale gol de joelho, barriga e até de mão, desde que o juiz não veja (não gosto desse tal de VAR). E que um campeonato se ganha a cada instante, a cada momento. Com ou sem a bola. Basta estar inteiro. Atento e forte.

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP