AQUILINO    

«Quem folhear os livros de Aquilino, encontra em regra, no verso de uma das primeiras páginas, a marca do autor. Essa marca é representada por uma águia, de asas abertas, encimada pela palavra "Aquilino". Sabendo nós que águia e Aquilino pertencem à mesma família, não nos causará estranheza que o romancista da Via Sinuosa e das Terras do Demo haja escolhido uma águia para marca do seu sinete. Estranheza poderá causar o facto de o romancista se chamar Aquilino -- nome tão raro como os corvos brancos. Mas, melhor ou pior, tudo tem neste mundo a sua explicação e por consequência, o nome de Aquilino não podia deixar de ter a sua. O escritor nasceu em 13 de Setembro de 1885. Nessa época, e se digo nessa época porque o calendário sob este aspecto não é imutável, o dia 13 de Setembro era consagrado a Santo Aquilino. A mãe do escritor, senhora muito religiosa, quis que o filho tivesse o nome do Santo do dia em que ele nasceu, e assim foi. Esta circunstância não veio a ter -- porque ocultá-lo? -- grande influência, sob o ponto de vista litúrgico, na vida espiritual do escritor. Se não temesse ser indiscreto, eu contaria mesmo que uma dama gentilíssima mandou, um dia, a Aquilino Ribeiro um registo de Santo Aquilino acompanhado de algumas profundas palavras de catequese. Aquilino sorriu e limitou-se a comentar:
    -- Se existe já um Santo Aquilino, para que é preciso outro?»
(... ... ...)
«Não é, porém, aquela águia de asas abertas, que constitui propriamente o ex-líbris de Aquilino Ribeiro. Aquela águia  não é senão a marca do  sinete  com que Aquilino chancela os exemplares das suas obras: o seu ex-líbris  é diferenteRepresenta um cavaleiro a galope, seguido fielmente, por um cão, e tendo esta frase por legenda«Alcança quem não cansa». Desenhou-o Leal da Câmara!
A simples citação deste nome evoca em todos nós um grande artista de múltiplas aptidões; mas evoca em mim -- e em Aquilino também -- um amigo inolvidável. Leal da Câmara

Luís de Oliveira Guimarães, «AQUILINO RIBEIRO - Através do seu Ex-Líbris» (1955)

 

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 O HOMEM E O EX-LÍBRIS 

«Portugal tem, desde Novembro de 1953, uma Academia de Ex-Líbris. A Academia tem a sua sede em Lisboa. Carlos Lobo de Oliveira, que doutamente preside à sua direcção, dizia-me uma tarde, que esta Academia não tinha senão vinte e cinco por cento de imortalidade. Trata-se duma modéstia respeitável que, entretanto, a matemática dos factos se permite contrariar. Poderá estabelecer-se uma percentagem para a mortalidade; para a imortalidade, não. Quando as instituições são imortais,  quando os homens são imortais, são imortais cem por cento: o que pode acontecer (e, frequentemente, acontece) é que a sua imortalidade cem por cento não dura senão algum tempo. O filho dum ilustre e espirituoso membro da Academia Francesa perguntava, uma vez, ao pai, com a cândida ingenuidade dos seus nove anos:
    -- O que é ser imortal, papá?
    -- É ser da Academia...
    -- E o papá é imortal, não é?
    -- Sou, -- enquanto for vivo!
Como quer que seja, esta Academia de Ex-Líbris, à qual desejo longa e profícua existência, merece o mais justificado respeito, não só pelas pessoas que a compõem, como pelos objectivos que a norteiam. Estas palavras -- devo acentuá-lo -- revestem-se de tanto maior imparcialidade quanto é certo que eu não sou ex-librista. No tempo em que escrevi as Saias Curtas -- há tanto tempo que as saias, desde então para cá, já desceram trinta centímetros e eu já envelheci trinta anos -- pensei em arranjar um ex-líbris. Cheguei mesmo a idealizá-lo. Representaria uma bonita rapariga a ler e a fumar, recostada num maple, com a perna cruzada mostrando a liga, e, à volta, esta legenda significativa: Per omnia soecula soecolorum. Felizmente a ideia não se converteu em realidade, e digo felizmente porque graves coisas teriam acontecido se eu colocasse este ex-líbris, por exemplo, no Monge de Cister ou no Eurico, o Presbítero. Tão austeros varões pediriam a intervenção da polícia ou (o que era mais provável e mais sério ainda) acabariam por perder a cabeça pela rapariga que eu, insensatamente, lhes metera debaixo da capa.»

Luís de Oliveira Guimarães, «AQUILINO RIBEIRO - Através do seu Ex-Líbris» (1955)

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Imagens extraídas do Livro:

 «AQUILINO EM PARIS» de Jorge Reis, Ensaio (1986).  "Vega e Jorge Reis"

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Aquilino Ribeiro – Parte I – RTP Arquivos

Primeira parte do documentário sobre a vida e obra do escritor Aquilino Ribeiro: "O homem político, democrata e amante da liberdade". Inclui imagens de arquivo e depoimentos diversos.

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https://arquivos.rtp.pt/conteudos/aquilino-ribeiro-parte-i-3/

 

Aquilino Ribeiro – Parte II – RTP Arquivos

Segunda parte do documentário sobre a vida e obra do escritor Aquilino Ribeiro: "Letras que dão voz ao povo. O amor pela terra, pelas suas gentes, pela vida". Inclui imagens de arquivo e depoimentos diversos.

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«Aquilino possuía, como nenhum outro, a sabedoria da língua e dos segredos gramaticais e estilísticos: metáforas, sinédoques, parábolas, fábulas, analogias, um arsenal de conhecimentos que aplicava nos livros com alegre desenvoltura.»

Armando Baptista-Bastos

 

«Aquilino, no seu saber de amor feito, conhecedor profundo de aldeias e vilas, e suas gentes, campónios, fidalgos, brasileiros, padres, almocreves, da meseta lusitana, cantor do sol e da noite e dos próprios lobos companheiro. Romancista da inteligência e da coragem, da rebeldia mas também da astúcia, da paixão concentrada e também do desejo à solta, observador prodigioso, mestre da língua como nenhum outro escritor deste século.»

Urbano Tavares Rodrigues

 

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Entrevista transmitida no Rádio Clube Português, na rubrica "Perfil de um Artista", a 16 de Julho de 1957. Realização de Igrejas Caeiro.
 
 
(I) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 1/4)   duraçao: 9:50 m.
 

 

(II) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 2/4)

 
(III) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 3/4)
 

 
(IV) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 4/4)
 

 

… «A meia grosa de livros que escrevi foram de facto para mim, em tanto que obra de criação e exalçamento, como igual número de vinhas que plantasse. Nesta faina exaustiva tive de desatender à vida de relações, não cultivar como devia a amizade, remeter os meus à vis própria quando poderia com um pouco de arte, salamaleque, e o "quantum satis" da desvergonha cívica nacional, consagrada e triunfante, guindá-los a ministros ou banqueiros. Permiti ainda, levado na minha obsessão, que os gatunos oficiais e de mister me metessem as mãos nas algibeiras, os pirangas me ludibriassem, e toda a canzoada humana me ladrasse impunemente. Numa palavra, a vida utilitária, o arranjinho, a conveniência mundana nunca me roubaram um minuto de labor. Valeu a pena toda esta existência de sacrifício, de que ninguém se apercebeu, que ninguém me agradece, de que aliás ninguém me encomendou o sermão? Em minha consciência não sei responder.»...

Excerto da dedicatória do livro «Quando os Lobos Uivam» ao Dr. Francisco Pulido Valente, datada de Dezembro de 1958.