Nascimento de Luís de Oliveira Guimarães
«A 19 de Abril de 1900, nasceu o magistrado, escritor, dramaturgo, jornalista e humorista português Luís de Oliveira Guimarães.»
Amante da ruralidade portuguesa e frequentador assíduo dos bastidores intelectuais dos centros urbanos, privou com os vultos mais marcantes dessa época e soube traduzir, nas suas inúmeras crónicas, conferências e livros, quer a singeleza da cultura tradicional portuguesa, quer o fino espírito dos intelectuais do seu tempo.
Lembrar a sua figura frágil e a sua palavra entusiasmante, a vivacidade da sua personalidade pública e o seu afectuoso trato no espaço familiar é, por isso, um dever que cumprimos com grande júbilo.
Para a Família é uma oportunidade extremamente gratificante de dar a conhecer a pessoa através do seu espólio, podendo, deste modo, reviver o privilégio que foi privar com uma individualidade ímpar e contribuir para a preservação da sua memória.
Paula Oliveira Guimarães
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O HOMEM E O EX-LÍBRIS
«Portugal tem, desde Novembro de 1953, uma Academia de Ex-Líbris. A Academia tem a sua sede em Lisboa. Carlos Lobo de Oliveira, que doutamente preside à sua direcção, dizia-me uma tarde, que esta Academia não tinha senão vinte e cinco por cento de imortalidade. Trata-se duma modéstia respeitável que, entretanto, a matemática dos factos se permite contrariar. Poderá estabelecer-se uma percentagem para a mortalidade; para a imortalidade, não. Quando as instituições são imortais, quando os homens são imortais, são imortais cem por cento: o que pode acontecer (e, frequentemente, acontece) é que a sua imortalidade cem por cento não dura senão algum tempo. O filho dum ilustre e espirituoso membro da Academia Francesa perguntava, uma vez, ao pai, com a cândida ingenuidade dos seus nove anos:
-- O que é ser imortal, papá?
-- É ser da Academia...
-- E o papá é imortal, não é?
-- Sou, -- enquanto for vivo!
Como quer que seja, esta Academia de Ex-Líbris, à qual desejo longa e profícua existência, merece o mais justificado respeito, não só pelas pessoas que a compõem, como pelos objectivos que a norteiam. Estas palavras -- devo acentuá-lo -- revestem-se de tanto maior imparcialidade quanto é certo que eu não sou ex-librista. No tempo em que escrevi as Saias Curtas -- há tanto tempo que as saias, desde então para cá, já desceram trinta centímetros e eu já envelheci trinta anos -- pensei em arranjar um ex-líbris. Cheguei mesmo a idealizá-lo. Representaria uma bonita rapariga a ler e a fumar, recostada num maple, com a perna cruzada mostrando a liga, e, à volta, esta legenda significativa: Per omnia soecula soecolorum. Felizmente a ideia não se converteu em realidade, e digo felizmente porque graves coisas teriam acontecido se eu colocasse este ex-líbris, por exemplo, no Monge de Cister ou no Eurico, o Presbítero. Tão austeros varões pediriam a intervenção da polícia ou (o que era mais provável e mais sério ainda) acabariam por perder a cabeça pela rapariga que eu, insensatamente, lhes metera debaixo da capa.»
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AQUILINO
«Quem folhear os livros de Aquilino, encontra em regra, no verso de uma das primeiras páginas, a marca do autor. Essa marca é representada por uma águia, de asas abertas, encimada pela palavra "Aquilino". Sabendo nós que águia e Aquilino pertencem à mesma família, não nos causará estranheza que o romancista da Via Sinuosa e das Terras do Demo haja escolhido uma águia para marca do seu sinete. Estranheza poderá causar o facto de o romancista se chamar Aquilino -- nome tão raro como os corvos brancos. Mas, melhor ou pior, tudo tem neste mundo a sua explicação e por consequência, o nome de Aquilino não podia deixar de ter a sua. O escritor nasceu em 13 de Setembro de 1885. Nessa época, e se digo nessa época porque o calendário sob este aspecto não é imutável, o dia 13 de Setembro era consagrado a Santo Aquilino. A mãe do escritor, senhora muito religiosa, quis que o filho tivesse o nome do Santo do dia em que ele nasceu, e assim foi. Esta circunstância não veio a ter -- porque ocultá-lo? -- grande influência, sob o ponto de vista litúrgico, na vida espiritual do escritor. Se não temesse ser indiscreto, eu contaria mesmo que uma dama gentilíssima mandou, um dia, a Aquilino Ribeiro um registo de Santo Aquilino acompanhado de algumas profundas palavras de catequese. Aquilino sorriu e limitou-se a comentar:
-- Se existe já um Santo Aquilino, para que é preciso outro?»
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«Não é, porém, aquela águia de asas abertas, que constitui propriamente o ex-líbris de Aquilino Ribeiro. Aquela águia não é senão a marca do sinete com que Aquilino chancela os exemplares das suas obras: o seu ex-líbris é diferente. Representa um cavaleiro a galope, seguido fielmente, por um cão, e tendo esta frase por legenda: «Alcança quem não cansa». Desenhou-o Leal da Câmara!
A simples citação deste nome evoca em todos nós um grande artista de múltiplas aptidões; mas evoca em mim -- e em Aquilino também -- um amigo inolvidável. Leal da Câmara!»
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«Examinando o ex-líbris de Aquilino, facilmente se colherá a filosofia que dele transparece. Não se torna, com efeito, difícil adivinhar que aquele cavaleiro, aquele cão e aquela legenda significam, na sua expressão alegórica, que, neste mundo, quem se cansar depressa nunca ou quase nunca alcança. É a velha história do cavaleiro e do dorminhoco. Certo caminhante, indo de jornada, encontrou uma fonte, sentou-se junto dela e adormeceu profundamente. A dada altura, foi despertado pelo tropear dum cavalo e viu um cavaleiro, esbelto e fogoso, parar junto da fonte, apear-se, beber água, dar de beber ao animal e preparar-se, rapidamente, para retomar a sua marcha:
-- Aonde ides com tanta pressa? -- perguntou-lhe o dorminhoco, bocejando.
E o cavaleiro respondeu, logo partindo a galope:
-- Aonde tu nunca irás, se continuares aí, dormindo!
Sim! Na vida em regra, só os que não cansam, alcançam. Ao olhar o ex-líbris de Aquilino Ribeiro, ao observar aquele cavaleiro, e o cão e a legenda que o acompanham, vejo eu (e, por certo, todos vêem) não uma mera fantasia gráfica, embora conceituosa, mas uma síntese simbólica da infatigável existência, física e espiritual, sempre fiel a si mesma, do próprio Aquilino. Já, há quarenta anos, no prefácio do "Jardim das Tormentas", Carlos Malheiro Dias descrevia Aquilino fustigando o corcel com a sua rédea de bronze e caminhando, veloz, de feltro ao vento, sem um desfalecimento, sem um abandono, na ânsia de chegar ao Ideal, porventura inatingível, que ele próprio criara. Há quem diga que o Ideal e a Ilusão se assemelham às folhas das árvores que vão caindo, uma a uma, quando a nossa vida se aproxima do Inverno. Sem dúvida, -- excepto para certos espíritos privilegiados. Para esses, existe sempre Primavera. Conta-se, alegoricamente, que, um dia, em plena invernia, um velho poeta, envolto numa capa, caminhava, sob a neve. Nisto, deparou-se-lhe uma rapariga. o poeta sorriu-lhe, perguntou-lhe se ainda ficava longe a cidade e, em seguida, pediu-lhe licença para lhe oferecer uma flor.
-- Flores com este tempo? -- interrogou a pequena, rindo.
-- Para os que sonham, mesmo sendo velhos, há sempre flores.
E, abrindo a capa, tirou de um molho de rosas, que levava, uma rosa, ofereceu-a à rapariga e continuou o seu caminho»
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«Uma tarde, encontrava-se Carlos Malheiro Dias trabalhando no seu gabinete de director da Ilustração Portuguesa quando lhe anunciaram a visita de Aquilino Ribeiro, que ele não conhecia pessoalmente ainda. Mandou-o imediatamente entrar, e preparou-se para receber, senão um revolucionário tremendo, de façanhuda lavallière preta, capaz de incendiar o mundo com a ponta dum cigarro, pelo menos um boémio insubmisso envolto numa ampla capa aventureira. Qual não foi, porém, a sua desvanecedora surpresa ao deparar-se-lhe um rapaz risonho, correctíssimo, olhos castanhos, duma grande doçura idealista, vestindo um fato claro e ostentando o mais pacífico e o mais comunicativo dos sorrisos. Conversaram largamente. Acerca de política? Um pouco. Mas, sobretudo, acerca de literatura. Meia hora depois de Aquilino ter saído, entrou Rocha Martins.
-- Sabe quem aqui esteve há pouco? -- perguntou-lhe Malheiro Dias.
-- Não.
-- O Aquilino Ribeiro.
-- E que lhe pareceu o rapaz?
-- Pareceu-me que tem boa pinta e, se fizer uma revolução, há-de ser nas letras!»
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