Borges é, sem dúvida, o autor mais influente no universo da literatura a partir da segunda metade do século passado. Isso se deveu mais aos seus incomparáveis contos e ensaios. Sua poesia sempre ficou em segundo plano. No entanto, ele foi quase um militante do gênero nos seus livros iniciais (hoje em dia muito retocados, e reunidos em Primeira Poesia) e se dedicou profundamente à poesia nos seus anos derradeiros (nos sete livros que agora compõem Poesia).
No começo dos anos 60, surgiu um dos seus livros mais fascinantes e híbridos, O fazedor, no qual, após anos de exercício da prosa, voltava a mexer com a forma poética. Porém, o grande elo de ligação entre sua primeira fase e as sete coletâneas finais, é O outro, o mesmo, o qual, agora em sua feição definitiva, comporta cerca de setenta poemas que podem ser uma ótima introdução ao universo borgiano.
Eu gosto muito da poesia final de Borges, mas é preciso dizer que é pouco carismática, muito dura e chega a ser desgastante. No entanto, talvez por reunir poemas de tempos diversos, o genial escritor argentino se mostra, em O outro, o mesmo mais fluido, mais “simpático”, se podemos dizer assim, menos engessado na sua própria figura icônica, ainda que tenhamos a mesma impressão de uma voz intemporal, lapidar, que no centro de sua majestosa erudição e saturação civilizatória comporta os elementos mais primordiais do universo, o vento, a areia, a rocha, o ferro, junto ao elemento mais presente e insondável, o tempo, e o instrumento mais perecível e mais humano, a memória: “Peço a meus deuses ou à soma do tempo/ que meus dias mereçam o olvido/ que meu nome seja Ninguém como o de Ulisses/ mas que algum verso perdure/ na noite propícia à memória/ ou nas manhãs dos homens”.
Mais uma vez Buenos Aires aparece como uma sobreposição, um palimpsesto de tempos passados, de nostalgia pessoal e de cidade real: “E a cidade, agora, é como um mapa/ de meus fracassos e humilhações/daquela porta vi os entardeceres/ e ante este mármore esperei em vão/ Aqui o incerto ontem e o hoje claro/ me ofereceram corriqueiros casos/ de toda a humana sorte; aqui meus passos/ urdem seu impensável labirinto.” Ou ainda: “Antes, eu te buscava em teus confins/ que limitam com a tarde e a planura…/Estavas na memória de Palermo/em sua mitologia de um passado/de baralho e punhal e no dourado/bronze de aldravas nunca utilizadas/ com sua mão e o aro. Eu te sentia/nesses pátios do Sul e na crescente/sombra que desmaece lentamente/ sua longa reta, ao declinar o dia/ Agora estás em mim. És minha vaga/sorte, essas coisas que a morte apaga”.
Como a edição é bilíngüe, dá para ver como o original tem um sabor inigualável (onde está em português “desmaece”, por exemplo, no original temos “desdibuja”).
O grande mérito de Heloísa Jahn (sempre uma ótima tradutora, e que contou com a colaboração de outro craque, Paulo Henriques Britto, nos poemas ingleses) é propor uma versão em que encontramos uma feição própria, ainda mais num idioma tão próximo, inclusive por um ponderado e feliz uso de vocábulos diferentes, não tão literais, porém mais expressivos na nossa língua (o único senão é que ela elimina, por causa da métrica, de forma contumaz os possessivos borgianos, e isso às vezes altera o sentido de um verso ou uma imagem). É tão bom ler “Para cantar as glórias e lembranças/ amealhava laboriosos nomes/ se era a guerra a conjunção dos homens/ era também a conjunção das lanças” na nossa língua quanto, no original: “Para contar memórias o alabanzas/amonedaba laboriosos nombres; la guerra era el encuentro de los hombres/ y también el encontro de las lanzas” . Do encontro à conjunção, nada se perdeu, tudo se enriqueceu.
Aliás, talvez o poema Um soldado de Lee possa ilustrar esse perde-ganha da tradução de Heloísa Jahn. É discutível por exemplo, a maneira como ela verte:
“Lo ha alcanzado uma bala em la ribera
de una clara corriente cuyo nombre
ignora. Cae de boca. (Es verdadera
la historia y más de un hombre fue aquel hombre)…’
por:
“Atingiu-o uma bala na ribeira
de uma clara corrente cujo nome
ignora. Caiu de boca. (É verdadeira
a história e mais de um homem foi aquele)…”
Qual o motivo de evitar na tradução a repetição de “homem”, tão essencial ao verso, a meu ver?
No entanto, vejam como é feliz a tradução, no mesmo poema, do verso:
“caíste como un hombre muerto”
por:
“caíste como cai um homem morto”,porque reforça a aliteração, mas também porque evoca, na nossa própria tradição poética e tradutória, a maneira como Augusto de Campos traduziu um verso da Divina Comédia e que entrou para a história, e que não deve ter passado despercebida a uma tradutora do quilate de Heloísa Jahn quando considerou o verso.
Talvez O outro, O mesmo não tenha o apelo da contemporaneidade, mas é um dos livros mais bonitos do último meio século: “Mais além deste afã e deste verso/ me aguarda inesgotável o universo”.
(resenha publicada de forma ligeiramente mais condensada em “A Tribuna” de 31 de agosto de 2010)







