O PARADOXO DE BORGES: sobre “Elogio da sombra”
“Ninguém pode escrever um livro. Para
Que um livro seja verdadeiramente
Requerem-se a aurora e o poente
Séculos, armas e o mar que une e separa…”
Assim se inicia um dos poemas do maravilhoso O fazedor (1960). Seu autor, Jorge Luis Borges (1899-1986), tinha horror da subjetividade que parece essencial ao homem do pós-Romantismo (note-se que a própria idéia de “autoria”, isto é, o que há de mais pessoal numa obra, encontra-se problematizada). Por isso, procurou instituir um clima poético que vai justamente na vertente contrária: toda a história e até a eternidade são o mesmo que um único dia (“Em um dia do homem estão os dias/do tempo, desde o inconcebível/ dia inicial do tempo, em que um terrível/ Deus prefigurou os dias e agonias”; “Dá-me, Senhor, coragem e alegria/ para escalar o cume deste dia”), um indivíduo é toda a humanidade, e a alteridade, o eterno jogo do Mesmo e do Outro se dissipa nessa visão de mundo: “Somos esse quimérico museu de formas inconstantes/ uma pilha de espelhos rotos”, passando enquanto ficam a aurora, o poente, os séculos, as armas e o mar que une e separa, símbolo do imemorial, que foram requeridos para que Borges desse forma a outro grande livro da maturidade, ELOGIO DA SOMBRA (1969), com a mesma mistura de O fazedor de poemas com pequenos textos em prosa.
Não é na novidade e no surpreendente que vamos encontramos a grandeza da poesia que permeia ELOGIO DA SOMBRA. É na formulação lapidar de verdades que, justamente da maneira como são trabalhadas por Borges, parecem realmente eternas, vindas do fundo dos tempos, com um potente sopro de sabedoria. Não é à toa que ele foi co-autor de um notável e esclarecedor livro sobre Buda.
Veja-se o lindíssimo “Heráclito”:
“O segundo crepúsculo.
A noite que mergulha no sono.
A purificação e o esquecimento.
O primeiro crepúsculo.
A manhã que foi a aurora.
O dia que foi a manhã.
O dia numeroso que será a tarde desgastada.
O segundo crepúsculo.
Esse outro hábito do tempo, a noite.
A purificação e o esquecimento.
O primeiro crepúsculo…
A aurora sigilosa e na aurora
a inquietude do grego.
Que trama é esta
do será, do é e do foi.
Que rio é este
pelo qual flui o Ganges?
Que rio é este cuja fonte é inconcebível?
Que rio é este
que arrasta mitologias e espadas?
É inútil que durma.
Corre no sonho, no deserto, num porão.
O rio me arrebata e sou esse rio.
De matéria perecível fui feito, de misterioso tempo.
Talvez o manancial esteja em mim.
Talvez de minha sombra,
fatais e ilusórios, surjam os dias”.
Diante de um texto como esse temos de reconhecer que existe a perfeição. E que pouca coisa mudou na humanidade, em termos de especulação ontológica, desde os pré-socráticos. Não há uma única idéia nele, a respeito desse “senhor tão bonito” (como diz a música de Caetano Veloso), o tempo, que já não tenha sido expressa milhões de vezes, mas parece que todos esses milhões condensaram-se numa cifra mágica, numa formulação inexcedível.
Leitor voraz até ficar cego (“Que outros se jactem das páginas que escreveram/ a mim me orgulha o que li”), Borges sempre concebe o contrário, o “outro lado da moeda”: “…o esquecimento/ é uma das formas da memória, seu impreciso porão…”. Outro grande poeta latino-americano, o mexicano Octavio Paz, pensando em termos de ideologia (essa coisa que tanto horrorizava seu colega argentino), exprimiu esse jogo de contrários exemplarmente ao dizer que “a idéia fixa embebeda-se do oposto”.
Na trama do “será, é, foi”, tudo volta a se reciclar e tudo leva de novo às fontes, pelo menos o que conseguimos conceber ou o que carregamos no sangue, como mostra o poema que eleva o sobrenome dos avós, Acevedos, ao mítico, que forma o mundo da memória:
“Campos dos meus avós e que guardam
Ainda o nome de Acevedo, o nosso.
Indefinidos campos que não posso
Imaginar por inteiro. Meus anos tardam
E não contemplei ainda essas cansadas
Léguas de pó e pátria que meus mortos
Viram cavalgando, esses abertos
Caminhos, seus ocasos e alvoradas.
A planície é ubíqua. Tenho-os visto
Em Iowa, no Sul, em terra hebréia,
Naquele salgueiral da Galiléia
Que palmilharam os humanos pés de Cristo.
Não os perdi. São meus. Eu os detenho
No esquecimento, num casual empenho”.
Borges, o escritor que amava os paradoxos, não poderia ter inventado um melhor do que escrever um livro luminoso chamado ELOGIO DA SOMBRA.
(resenha publicada em 18 de dezembro de 2001, em A TRIBUNA de Santos, a respeito de uma edição da Globo com tradução dos poemas por Carlos Nejar & Alfredo Jacques).




