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«A música é o caminho que liberta a alma»

O meu peito hospedeiro tem sempre uma música pronta para o embalar. Porque só desperto, verdadeiramente, quando a casa se enche de melodias e de palavras cantadas. Acredito, portanto, que esta arte é uma fonte de motivação e o impulso certo para abraçar qualquer desafio, pois lê-nos a alma e permite-nos encontrar uma ponte catártica, no mesmo compasso em que exploramos as nossas emoções. É, por isso, um pedaço de lar, disponibilizando-nos um refúgio constante. E será sempre uma maneira para comunicar os meus inúmeros silêncios.

Ao escutar determinados trabalhos discográficos, desconstruo o que me inquieta e incentivo-me a melhorar a minha escrita, considerando que há artistas com uma capacidade sublime para escrever letras de canções, quase num ponto inimaginável. Mas esse lado surreal é estimulante, deixando-me num profundo estado de admiração. Então, vou saltando de disco em disco, descobrindo as novas vertentes de cantores que já são uma extensão da minha identidade, porém, abrindo a porta a novos nomes. Porque o nosso panorama musical tem uma mestria inesgotável, que se renova e se supera no talento e na interpretação. E eu sou uma privilegiada por, rodeada de tanta música portuguesa e internacional, deambular por playlists tão versáteis e memoráveis.

2020 trouxe-me sonoridades plurais, emocionais e inspiradoras. Naturalmente, não foi uma seleção simples e houve alguns títulos que ficaram de fora - mas que têm o meu coração. Apesar disso, estes 12 álbuns proporcionaram-me uma viagem especial, cheia de metamorfoses.

JANEIRO

Os The BLKBRDS são uma banda com influências electro, funk, hip hop e rock dos anos 80, com a clara intenção de recuperar essa essência mais antiga, modernizando-a e construindo-lhe uma ponte para o futuro. Como resultado desta fusão tão desafiante e rítmica, lançaram um álbum homónimo, que nos inquieta, convidando-nos a dançar. Sem receios. Sem inseguranças. Apenas pela paixão do movimento. Além disso, transmite toda a sinergia e todos os vínculos que se estreitam, comprovando o quanto há dialetos musicais que se podem unir. Marcando o presente, mas abrindo portas para um tempo que ainda estará para chegar [aqui].

FEVEREIRO

Capicua disponibilizou[-nos] um disco «aberto ao mundo», com muitas misturas, participações e uma energia mais dançável. Por outro lado, também demonstra uma atmosfera mais serena e que não deixa de ser um retrato da época mais feliz que a artista estava a viver. Além disso, é evidente que procurou explorar novas abordagens, mas preservando o seu traço interventivo. Quase sem filtros, é um álbum com esperança.

MARÇO

O álbum de estreia de Cláudia Pascoal apresenta uma sonoridade indie. E esta exclamação - tão marcada no título - é a prova concreta que está a traçar o seu caminho com passos sólidos, que tanto nos fazem querer dançar, provocar ou refletir. A transbordar de sentido de humor e personalidade, aborda assuntos fundamentais, mas de um modo descontraído. Além do mais, é um trabalho de partilha, com colaborações artísticas maravilhosas - visíveis e nos bastidores.

ABRIL

Kriola tem infinitas histórias dentro, numa espécie de «cachupa instrumental». Numa travessia que vai desde uma componente eletrónica até cadências como o batuque e o funaná, viajamos até Cabo Verde. Mas também podemos passar por Lisboa, por Londres, por Luanda. Porque este álbum abraça o mundo. Com uma voz mais ativista, há uma luta pela equidade, pela preservação das heranças, pela unificação de vários géneros artísticos, sem perder a sua alma de festa e de criatividade, vibrando, em uníssono, «com um som que só a nós e a todos pertence».

MAIO

O mais recente trabalho dos HMB «descreve uma narrativa contada da escuridão para a luz». Portanto, tendo sido escrito «durante um período de crise pessoal», há um vínculo relacional, que nos permite decifrar esta história que interliga canções, «lavando-nos a alma».

JUNHO

Tatanka tem uma das vozes que mais me fascina. A voz e alma dos Black Mamba estreou-se a solo, em 2019, com este disco, mas só este ano é que o escutei na integra, reforçando a minha admiração pelo artista. Privilegiando a nossa língua materna, há uma mistura de folk, «raízes de ska, ventos nómadas, alinhamentos astrológicos» e muitos sonhos. Pouco Barulho incentiva-nos a apreciar as coisas simples desta vida.

JULHO

Assim que coloquei o Changes a tocar, senti uma alma diferente a conversar comigo, por mais surreal que isso soe, atendendo a que há um traço de total transparência. Há sofrimento e há redenção. E há, também, amor. Que é, no fim de contas, o nosso maior superpoder. Ao transitar entre temas, reconheci o retorno às origens. À consciência soul na escrita. À influência R&B, mesmo que exista um trilho sonoro pop subentendido. E a maturidade das letras, bem como da voz, é indescritível. É inspiradora. E revoluciona-nos por dentro, pois leva-nos a explorar os lugares mais profundos e silenciosos da nossa mente.

AGOSTO

O disco de estreia da ex-concorrente do The Voice tem uma versatilidade encantadora, até porque interliga o folk, o indie pop e a música tradicional portuguesa. Composto e produzido pela própria, leva-nos numa viagem por temas comuns a todos nós, em alguma fase da nossa jornada. Num misto de sensações, inquietações e certezas, o seu timbre embala-nos, colocando como metades da mesma moeda os dilemas que nos desarrumam por dentro e aquilo que nos deixa confortáveis.

SETEMBRO

Este segundo álbum evidencia o amadurecimento do grupo e a exploração de novas sonoridades, recorrendo à introdução de instrumentos que não faziam parte da sua bagagem musical. Em simultâneo, nota-se uma certa heterogeneidade do estilo que articula a história de cada canção, porque partiram das influências que os inspiram e alargaram horizontes. Deste modo, deram forma a algo em que acreditam: a música não tem barreiras. Além disso, procuraram não se limitar a um único registo, estabelecendo, assim, um diálogo harmonioso entre a música popular portuguesa e outros géneros [a minha opinião completa aqui].

OUTUBRO

O primeiro álbum de Irma Ribeiro espelha as suas influências angolanas, numa viagem que parte do coração para o mundo. Com uma voz que nos sossega, de tão serena que é, dá asas aos seus sonhos. E leva-nos a deambular por faixas que tanto elevam o nosso lado mais emocional, como nos deixam com vontade de dançar. Que preciosidade. 

NOVEMBRO

Retrata a história «que não existe apenas nos telejornais». Como a artista mencionou, é um murro na mesa, uma vez que expõe o abuso, a misoginia, a violência psicológica, o sexo, a religião e, também, tudo «o que é ser uma mulher de sucesso, numa comunidade que nos quer calar e diminuir constantemente». Apresentando uma mensagem de extrema importância, é evidente que não podemos ficar à espera. Temos de impulsionar a mudança, para que o desfecho não se repita [aqui].

DEZEMBRO

Valas explorou o seu lado mais introspetivo, abordando questões que nos inquietam. Com um conjunto de melodias a serem exploradas, o seu instinto fica aqui representado, combinando força e vulnerabilidade.

Seria impensável não mencionar os dois álbuns que Taylor Swift lançou este ano - Folklore e Evermore -, porque, para além de serem surrealmente incríveis, trouxeram-nos tanta paz para o meio do caos.

Que álbuns marcaram o vosso ano?