Pintura: Coucher Soleil sur la Mer/Daniel Sagne Buscavam comida, vigiavam seus territórios, seguiam gritando de tempos em tempos. Ou será que eles estariam apenas curtindo o vento frio sob o Sol do inverno boreal? Gustavo Nagib* Os corvos me acordaram como de costume. O vidro fechado, mas a veneziana aberta. A luz do Sol podia penetrar, mas o vento frio, apenas na imaginação. Os corvos não devem se incomodar com as baixas temperaturas. Estão sempre buscando as migalhas deixadas pelos humanos. Às vezes, eles encontram fatias de presunto cru em meio às embalagens plásticas despejadas pelo caminho. Soltam gritos estridentes, um verdadeiro despertador. Na falta de galos, acorda-se com corvos. Acordar dói. Não é possível se acostumar com a dor, apenas vivê-la. A manhã é amarga ou azeda? Desperto de sonos profundos geralmente meio assustado e com um gosto estranho na boca. O corpo não deseja levantar. As noites são curtas demais e raramente é possível se lembrar dos bons sonhos. Mas é impossível se esquecer dos pesadelos. O dia começou, não tem como escapar. A barriga viva é a frequência interna para o medo de enfrentar uma nova jornada. São muitas perguntas. A maior parte delas, sem importância. Acabou o café? Requentar o pão de ontem? Tirar a manteiga da geladeira? Mas não vai dar tempo de esperá-la amolecer. Já não há apetite para o café da manhã. Acostumado com listas e tabelas, o cérebro organiza os deveres do dia. O trabalho é uma obrigação. O prazer da produção cede lugar à necessidade de ganhar a vida. Não temos o direito de perder a vida. Não sei onde a coloquei, não consigo encontrá-la em nenhum lugar. Será que ficou no bolso da calça que foi para lavar? De repente, a hora do almoço. As garfadas daquela refeição sem sabor me levavam lá para fora, onde poderia ter espaço para a imaginação. Via um céu azul. Algumas nuvens se movimentavam e os corvos sempre a voar. Eles não pareciam se cansar. Buscavam comida, vigiavam seus territórios, seguiam gritando de tempos em tempos. Ou será que eles estariam apenas curtindo o vento frio sob o Sol do inverno boreal? Se pintasse um lanche abandonado, o almoço estaria garantido. Repousei as mãos sobre meu rosto. Logo mudei de posição. Dizem que não se deve colocar as mãos no rosto em tempos de pandemia. Tratei de encontrar outra posição para as minhas mãos. Pousei-as de volta nos talheres. Pensei em mais nada. Em meu prato, um último pedaço de carne, que nunca seria dos corvos. * é geógrafo, Doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e poeta. Autor das obras “Amar: verbo indefinido” (Mini, 2015) e “Agricultura Urbana como Ativismo na Cidade de São Paulo” (Annablume, 2018)