Um dia do Cão
cotidiano, crônica, observação urbana, transporte público
Sua dona estava com aquela cara de quem queria puxar papo com alguém. Rapidamente, desviou o olhar. O cachorro fedia. Gustavo Nagib* Colocou o despertador para às 8 horas, mas despertou-se às 9. Perdeu o trem das 10, ficaria com o das 11. Fez tudo muito rápido: lavou os olhos para tirar a remela, fez xixi, tomou um cafezinho, lavou a xícara e uma colher do dia anterior, se vestiu, engoliu uma banana, escovou os dentes e partiu. O dia estava com um céu azul incomparável. Sol radiante e cheiro de protetor solar no ar. “Dizem que a primavera faz os olhos arderem”, então pingou duas gotas de colírio em cada olho. Estava cansado, mas estava de férias. Entrou no metrô rumo à estação central. Obstáculo: um grande e simpático cão havia se esticado bem no meio do vagão. Encontrou um lugar, bem de frente ao cão. Sua dona estava com aquela cara de quem queria puxar papo com alguém. Rapidamente, desviou o olhar. O cachorro fedia, mas a mulher não parecia se importar com aquele cheiro. “Será que a casa dela teria aquele odor? Como seria lhe fazer uma visita? Ela servindo um cafezinho, falando inutilidades e aquele cheiro de cachorro subindo ao nariz!?”. O cão observava atentamente o pedaço de broa que estava prestes a colocar na boca. Foto: Reprodução Quando olhou para frente, um rapaz encostado na janela lhe chamou a atenção. Ele se divertia no celular, mas tinha um sorriso solitário. Em seguida, duas garotas entraram no metrô. Uma delas foi brincar com o cachorro. “Não, ele está fedido!”, pensou movimentando levemente os lábios. “Todo ser humano deveria ter um cachorro. Todo cachorro deveria ter um ser humano”. Enquanto isso, a outra garota observava fixamente o celular do rapaz. Era um olhar de tesão. “O que esse cara está fazendo no celular?”. Na baldeação, não resistiu e espichou o olhar para conferir o que havia no celular. Decepcionou-se, era apenas um joguinho esteticamente pouco atrativo. Apertou as pálpebras com certa raiva e indignação. Pegou a outra linha, não havia lugar para sentar. Colocou-se de pé ao lado daquele mesmo cão. Sua dona já tinha engatado uma conversa com a senhora ao lado: “Pode passar a mão, ele é muito simpático!”. Quando as portas do metrô se abriram, correu para o hall da estação central. O letreiro luminoso apontava que seu trem sairia em 10 minutos. Plataforma 7. Voando, comprou uma broa e correu. Entrou no trem e sentou-se na poltrona 51. Sentiu um odor familiar, olhou para trás: espremido debaixo da poltrona 55, o cão observava atentamente o pedaço de broa que estava prestes a colocar na boca. * é geógrafo, Doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e poeta. Autor das obras “Amar: verbo indefinido” (Mini, 2015) e “Agricultura Urbana como Ativismo na Cidade de São Paulo” (Annablume, 2018)
Texto originalmente publicado em Revista Fina