Benditas sogras
gastronomia, cultura popular, confeitaria, crônica
a língua de sogra habita a maioria das vitrines das padarias, ao lado das rosquinhas de coco, dos bom-bocado, dos pães tipo pretzel, pãezinhos recheados com creme de coco Matheus Lopes Quirino — Me vê uma língua de sogra… — Uma só? — Pode ser essas duas da frente, elas estão bonitinhas hoje… Na fria estufa da padaria, uma açucarada fauna reluz finos grãos petrificados de açúcar conforme os reflexos das lâmpadas led se chocam contra o espelho que as retém imaculadas ali, debaixo de embalagens ou papéis amanteigadíssimos. Na primeira fila, logo na segunda ou terceira prateleira, estão os doces besuntados com creme de coco, cujas gostosuras que ostentam aquela consistência cremosa mais iluminada, vistosa, com evidentes pedaços de coco selecionados e lascados ali ganham os olhos de quem já com a boca derrama saliva língua adentro. E falando em língua, chama-se língua de sogra, esse pãozinho doce passado numa cobertura de ovos e leite condensado em altas pressões, para depois se roçar em finos e crocantes bastonetezinhos de coco. Mais ou menos do tamanho de um palmo, generoso, esticado, a língua de sogra habita a maioria das vitrines das padarias, ao lado das rosquinhas de coco, dos bom-bocado, dos pães tipo pretzel, pãezinhos recheados com creme de coco, sonhos, e até quindins, esses sobreviventes da idade da pedra das confeitarias. As línguas de sogra de Ligia Zilbersztejn O doce é perfeito. Mas o nome, dizem alguns, é injusto. Justo a sogra, esse ser demonizado pelos machos contadores de história, ficou encarregada da língua açucarada do pãozinho. A sogra? Esse monstro emplumado, cuja língua, ao invés de açúcar, seria carregada de espinho. Não faz sentido. A menos que, na contramão do lugar comum parental, fosse essa sogra, detentora da patente do doce, um doce de mulher, uma fã de carteirinha do genro. Uma sogra prafrentex, quebradora de tabus, paradigmas e fora da curva desse injustiçado conto da história popular. A língua de sogra, tem também outra variação, que leva coco, mas ameixa numa bolotinha, chamada de olho de sogra. Para varear, sua criação se enraizou numa lenda. Contam que houve confusão no preparo de beijinho, aquele brigadeiro de coco, e a moça – com certeza atarefada, puta da vida, atazanada – precisava ficar fazendo sala para a linguaruda da sogra que não calava a boca. Misturou então os ingredientes errados no recheio do beijinho, ficando ele com outra consistência. Olhuda, linguaruda, chata, essa sogra foi a coautora acidental da delícia. E para consertar o negócio, fez-se uma massa às pressas para uma confeitaria rápida. E deu certo. Publicado por Matheus Lopes Quirino Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino
Texto originalmente publicado em Revista Fina