Se alguém fervoroso contra o lockdown lesse este texto, com certeza o iria usar a seu favor, reforçando o argumento que a oposição ao governo atual não gosta de trabalhar, que é vagabunda

Isabella Marzolla*

Em março de 2020, que às vezes parece ser o mês que vivemos em looping desde então, foi o marco inicial da epidemia de Coronavírus no Brasil. Em março daquele ano ainda fui em alguns blocos de pós-carnaval (São Paulo teve o maior carnaval de todos os tempos). Os casos notificados da doença eram tão raros no País, que o Jornal Nacional até noticiou uma “minibio” da pessoa que tinha contraído o vírus, “homem que voltou de viagem a trabalho da Itália para São Paulo testa positivo. Na chegada ele se encontrou com alguns familiares em uma espécie de ‘social’”.

Dia 17 daquele mês em diante entrei oficialmente de quarentena, fazendo home office, o regime do qual não saí nunca mais. Ir ao mercado, dar uma volta pelo bairro, ir ao médico e visitar um amigo por mês (e olhe lá), viraram grandes programas da semana, grandes eventos da vida entretelas. Mas lá em março alguns iludidos, incluindo eu, pensamos que a quarentena seriam “férias extraordinárias”. Que por estarmos vivendo, ou sobrevivendo, um período histórico tão inimaginável e caótico — semelhante à uma situação de Guerra Mundial — nossa rotina não seria a mesma e que quem sabe a produção laboral fosse suspensa até segundo aviso — inocência nossa.

Claro, em nossas cabeças essa suspensão da produção mundial e do sistema capitalista como um todo não suportaria uma semana. Especialmente para a população que trabalha de dia para comer à noite.

Se alguém fervoroso contra o lockdown lesse este texto, com certeza o iria usar a seu favor, reforçando o argumento que a oposição ao governo atual não gosta de trabalhar, que é vagabunda. Isso, dentre outras discussões como, a instauração do voto impresso no Brasil e anseios intervencionistas, aparece com altíssima frequência em grupos Bolsonaristas no Telegram.

Vídeos, fotos e textos  de integrantes  da classe média à baixa reclamando que com a quarentena não conseguem exercer suas funções, aquelas que exigem que o funcionário esteja no local, suplicando que são chefes de família e que não conseguem pôr comida no prato de seus filhos. Mais de 125 milhões de brasileiros vivem a insegurança alimentar na pandemia — de acordo com o Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça —, 14,3 milhões estão desempregados e cerca de 13,7 milhões vivendo abaixo da linha da extrema pobreza, ou seja, com menos de R$ 1,90 por dia, segundo o IBGE.

Quando olhamos essas súplicas, os apoiadores do Presidente – como as deputadas federais Carla Zembelli (PSL-SP) e Bia Kicis (PSL-DF) e a base “dos 30%” do eleitorado —, que advogam contra o lockdown, podem soar razoáveis e empáticos, mas o que eles e a população carente precisam lembrar ou, se não sabem, que  sejam informados, é que é papel do Estado fornecer subsídios a famílias em extrema vulnerabilidade, e  garantir, a priori, a sobrevivência de seu povo durante  momentos  dramáticos como este.

De acordo com Tereza Campello, ex-ministra do Desenvolvimento Social e do Combate à Fome dos governos Dilma, a cesta básica deveria ser no mínimo de R$ 600. Hoje o auxílio emergencial tem o valor médio de R$ 250, mas que pode variar de R$ 150 a R$375, a depender da composição de cada família. Durante janeiro, fevereiro e março essas famílias ficaram sem receber nenhuma verba do governo federal. A atuação do Estado foi suficiente para evitar essa epidemia da fome no País?

Na sexta-feira passada (23), o secretário da Fazenda Waldery Rodrigues, confirmou em coletiva de imprensa o cancelamento do Censo Demográfico de 2021. O levantamento foi cancelado devido a cortes no financiamento; a pesquisa perdeu 96% do orçamento, que foi reduzido de R$ 2 bilhões para R$ 71 milhões. O veto à pesquisa mais importante do País foi uma resposta ao cabo de guerra que se tornou a aprovação do Orçamento público de 2020.  O Orçamento, que antes de ser validado passava o teto de gastos permitido, deslocou verbas originalmente destinadas a instituições e órgãos como IBGE, IBAMA, FUNAI, entre outros, em maior parte para emendas parlamentares, para  agrado ao Centrão.

O Brasil sem o Censo de 2021 ajuda o governo no sentido de que o Estado não será fiscalizado e cobrado posteriormente. A ausência de dados, estatísticas e medidores sociais no País salvam o governo Bolsonaro de ser criticado e de reconstruir políticas públicas para corrigir erros. A censura está posta, o coração não sente o que os olhos não veem, só quem passa fome e reza para um dia a vida melhorar.

Se o ódio pode ser combustível, essa é hora de encher o tanque, e não o do exército, o do povo

*Jornalista, também escreve no blog Inconsciente Coletivo.