Com todo mundo de saco cheio, o que é preciso fazer para parte da população entender que o presidente mata?

Isabella Marzolla*, colaboração para Fina

Essa semana tive que ir três vezes resolver um problema do meu convênio médico. Com o avanço da pandemia e a luz fim do túnel que parece se distanciar cada vez mais, os convênios resolveram cortar coberturas e consequentemente seus custos, o que sai caro para quem paga, além de ser uma falta de humanidade em um momento deste. Gastei três horas do dia, de segunda a quarta, em deslocamentos, graças ao trânsito paulistano. Fui de táxi todas as vezes – por óbvias questões “extraordinariamente” sanitárias – e conversei com todos os motoristas, atendentes do convênio, caixas de supermercado, jornaleiros e pessoas das mais variadas idades, classes e estilos na salinha de espera do convênio médico. 

Além desses papos, no meu trabalho entro em contato com profissionais das mais variadas áreas, acadêmicos, especialistas da saúde, política, cultura, economia. E todos tinham – pelo menos em minha amostragem – um ponto de convergência: “não aguento mais, quanta incompetência”, seguido muitas vezes por “a gente nunca sabe se pode falar mal né, não sei se a pessoa apoia ou não…”.  

Consumindo os grandes jornais em todas as suas esferas, – impresso, online, TV, rádio, podcast, Youtube – além de notícias especialmente deprimentes e alarmantes encontramos opiniões vindas de jornalistas, colunistas e entrevistados dos mais diversos espectros políticos, criticando descaradamente o presidente e seu governo. Que contabiliza até este instante mais de 260 mil mortes.

Consensualmente entre todos – imagino – é cansativo, desgastante, estressante ou qualquer outro adjetivo negativo que você prefira usar (viver neste país com certeza é) repetir, em tese, a mesma santa opinião de oposição à condução de Bolsonaro e sua clã nos rumos de nossas vidas. Os jornalistas de grandes veículos podem até se perguntar (em suma): “O que é preciso fazer para esses 30% da população entenderem que o presidente deles mata? Seja de maneira dolosa ou culposa”.  Essa resposta é demasiada complexa e longa para caber na coluna e eu nem teria as forças para respondê-la, assim de supetão.

Na quarta-feira (03/03) 1.910 brasileiros perderam a vida. Sobre isso, um dia depois, o presidente da república comentou com seus fiéis seguidores durante inauguração de trecho da ferrovia Norte-Sul, em São Simão (GO), que: “Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?” e ainda completa com “é preciso enfrentar nossos problemas”, começando por você presidente. Eu não sou presidente, mas acredito que o mínimo que um governante deveria ter é o apreço e a noção de responsabilidade pela vida da população de sua nação. Sem gente viva quem vai votar nas eleições de 2022? Quem vão trabalhar e movimentar a economia? Quem irá as igrejas? Quem vai constituir famílias? Quem vai comprar armas e se orgulhar de serem brasileiros? Se nem vivos estarão mais.

Em pesquisas de institutos como Datafolha e Ibope em 2020, o nível de aprovação geral do governo Bolsonaro quase sempre ultrapassava um terço da população. No levantamento mais recente sobre a aprovação do governo, realizado entre 18 e 23 de fevereiro pelo IPEC (Inteligência, Pesquisa e Consultoria), 28% (de novo esses 30% persistem) dos entrevistados consideram a gestão Bolsonaro ótima ou boa!, Enquanto 39% avaliam como ruim ou péssima. Ainda segundo os dados do IPEC, o eleitorado evangélico é a principal base de apoio a Bolsonaro, que tem avaliação positiva de 38% neste segmento.

Como escrevi no início desta coluna, conversei com uma pequena, mas diversa, amostragem da população e sentia todo mundo “de saco cheio”. Então a gente pode se perguntar, quem são e onde estão durante a luz do dia aqueles que são a favor do presidente e de seu negacionismo? Seremos minoria até quando? O poder emana do povo só quando é conveniente ao congresso e ao dinheiro? E para os fiéis, que gesto de amor o presidente fez ao povo? Qual foi o aceno a Deus, de seu Messias?

*É jornalista, escreve no blog Inconsciente Coletivo, hospedado na home do Estadão

{os artigos de opinião não expressam, necessariamente, as posições da revista. Fica a cargo do autor responder por suas convicções)