Uma idéia genial e sedutora (ainda mais com a insatisfação generalizada com qualquer esfera do poder, seja executiva, legislativa ou judiciária) fundamenta o argumento de Ensaio sobre a lucidez: sem combinação prévia, mais de oitenta por cento do eleitorado vota em branco na capital de um país europeu, o mesmo que já sofrera uma epidemia de cegueira quatro anos antes, como narrado em Ensaio sobre a cegueira.
Desnorteado, após medidas autoritárias ostensivas e vãs, o governo coloca a cidade em estado de sítio e retira-se, deixando-a por sua conta e risco: “… com esta ação radical a cidade insurgente ficará entregue a si mesma, terá todo o tempo de que precisa para compreender o que custa ser segregada da sacrossanta unidade nacional, e quando não puder agüentar mais o isolamento, a indignidade, o desprezo, quando a vida lá dentro se tiver tornado num caos, então os seus habitantes culpados virão a nós, de cabeça baixa, a implorar o nosso perdão”. Contrariando todas as expectativas, tudo funciona perfeitamente.
O caos fica por conta dos detentores do poder. Incapazes de compreender o que se passa, ou de procurar novas posturas e novas metas, eles procuram desmoralizar os habitantes da cidade, chegando ao ponto de efetuar um atentado, mandando aos ares uma estação de metrô. Não conseguindo os resultados esperados, e ainda enfrentando a deserção de representantes da autoridade constituída (como acontece com o Presidente da Câmara Municipal, num dos melhores momentos do romance), os ministros procuram um “culpado”, um bode expiatório, e a escolhida é a mulher que não cegara no romance anterior, justamente a pessoa que manteve a lucidez no meio da desagregação social e pessoal desencadeada pela cegueira.
O problema é que o Comissário encarregado do inquérito (que, na verdade, é arbitrário e extra-oficial) não se convence da culpabilidade dela e ainda por cima é cativado pela suposta subversiva. Só que o Poder, em qualquer uma de suas encarnações, sempre leva a melhor, sempre chega a qualquer extremo para poder se manter…
Além da fluência extraordinária da narrativa (essa também era uma das qualidades do emocionante Ensaio sobre a cegueira, talvez o mais límpido dos grandes textos saramaguianos, porém ele tratava de uma matéria bem mais desagradável, mais terrível, mais opressiva), que confirma a maestria do escritor (aos 81 anos), o achado maior de Ensaio sobre a lucidez, que nos faz perdoar até algumas pequenas quedas na voltagem do texto, algumas puerilidades, algumas páginas banais, é o fato de que ele jamais penetra na mente das pessoas que votaram em branco na cidade (até mesmo a mulher que não cegou permanece uma figura esfíngica, quase oracular). O governo reúne-se, age, persegue, executa, mas nunca temos acesso ao lado oposto.
Só podemos ter uma pista, já que com certeza trata-se de atitudes do inconsciente coletivo, não de um movimento político (pois todos são desacreditados pelo texto), se pensarmos nas seguintes passagens de Ensaio sobre a cegueira: “está visto que aqui já ninguém pode se salvar, a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”. E mais adiante: “mais necessidade teriam os que estão vivos de ressurgir de si mesmos, e não o fazem, já estamos meio mortos, disse o médico. Ainda estamos meio vivos, respondeu a mulher”.
Os eleitores que votam em branco, que se recusam a imergir no caos patrocinado pelo poder público, talvez tenham redescoberto a esperança, talvez tenham lembrado a si mesmos que estavam meio vivos, e que essa “meia-vida” pode ser uma plataforma lúcida para outra forma de vida, simbolizada de uma forma lúdica (a molecagem do voto em branco). Saramago, entretanto, mantém o mistério da cidade. E da sua personagem mais fascinante.
É uma tristeza para o leitor que, pela própria lógica do poder, o destino dela tenha de ser trágico (e sempre acompanhada pelo cão que lhe bebia as lágrimas durante a outra situação), pois a partir da entrada do Comissário em cena, o tom leve, quase farsesco, e cheio de bonomia, de Ensaio sobre a lucidez, que destoa completamente das outras obras de Saramago, vai adensando-se e melancolizando-se, como neste diálogo entre o Comissário e a mulher que ele investiga: “Imagino que a vão estigmatizar perante a opinião pública. De não haver cegado há quatro anos. Bem sabe que para o ministro é altamente suspeito que a senhora não tenha cegado quando toda a gente estava a perder a visão, agora esse fato tornou-se motivo mais do que suficiente, desse ponto de vista, para a considerar responsável , no todo ou em parte, do que está a suceder. Refere-se ao voto em branco. Sim, ao voto em branco. É absurdo, é completamente absurdo. Aprendi neste ofício que os que mandam não só não se detêm diante do que nós chamamos absurdo como se servem dele para entorpecer as consciências e aniquilar a razão”.
Contraposta à cegueira que nos governa, a lucidez é a possibilidade de se engendrar atos de insurreição ética.
(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 11 de maio de 2004)
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