Fotografia da minha autoria

«Uma história de amizade e reencontro com a vida»

Gatilhos: Morte, Saúde Mental, Referência a Violência Doméstica

O título enigmático e a ação passada numa aldeia do Alentejo deixaram-me com vontade de descobrir a obra de estreia do Rui Couceiro. Além disso, na Feira do Livro do Porto, em 2022, tive a oportunidade de ouvir a conversa que o autor teve com Inês Fonseca Santos e achei interessante as temáticas que procurou incluir na narrativa. Um ano e uns meses depois, li-a, finalmente, e não foi tudo o que imaginei que pudesse ser.

ONDE SÓ GRASSA A MORTE

Baiôa Sem Data Para Morrer acompanha um jovem professor que, sem vínculo a uma escola, viciado no telemóvel e a enfrentar uma crise existencial, aceita mudar-se para Gorda-e-Feia, aldeia dos seus avós, e, deste modo, reencontrar-se com o seu destino. O objetivo é ficar uns meses, na casa destes familiares, que Joaquim Baiôa reabilitou, libertando-a da camada de abandono que, em boa verdade, parece povoar toda a aldeia. E, aqui, percebe-se que a desertificação tem peso na história, é uma preocupação que se enlaça aos pensamentos do narrador e das demais personagens. Portanto, junta-se «ao velho faz-tudo», para tentar recuperar um pouco da sua vivacidade. Gorda-e-Feia aparenta ter ficado esquecida aos olhos do mundo, mas a sua pacatez contrasta com uma realidade peculiar: é que a «morte insiste em sair à rua».

«Que distância existiria entre essas duas margens em que nos posicionávamos?»

Fiquei entusiasmada com a premissa, mas distanciei-me da concretização, porque dispersa por acontecimentos que não me parecem centrais para a história. Por norma, até aprecio narrativas lentas, que se focam na banalidade do quotidiano. Nem sempre leio para encontrar essa representação, mas gosto quando a ficção nos apresenta contextos credíveis. Neste livro não senti isso. Ou, melhor, até via várias destas situações a acontecerem, mas não precisava de descrições tão exaustivas para compreender a mensagem.

«Sentia-me a um pequeno passo de compreender o que sentem as pessoas que querem que a vida os deixe em paz»

O contraste entre o urbano e o rural, a questão do envelhecimento e, até, a modernidade que demora a chegar àquele lugar são aspetos que podem proporcionar uma reflexão pertinente, mas ficam ofuscados pelas sucessivas repetições e pelas rotas paralelas que o protagonista procura traçar. Além disso, reconheço que não adorei a sua voz, não adorei a forma como foi interpelando o leitor. Recordo-me de ouvir o autor referir que não tinha qualquer intenção de atribuir um tom moralista, mas fiquei com a impressão contrária. Há passagens em que o narrador parece mesmo colocar-se num patamar superior, como se soubesse algo que nós não sabemos e essa vantagem lhe trouxesse qualquer tipo de ascensão. Acho que lhe faltou mais humildade.

«São vívidas as recordações - como poderiam não ser?»

É um livro demasiado extenso, com incoerências e que se torna maçador na sua minúcia. Queria muito ter gostado, mas a promessa inerente à premissa é explorada de uma forma superficial. Acho que a escrita tem potencial e gosto da ideia de comunidade que Baiôa alimenta, unindo forças por um compromisso comum, mas estava à espera de ser arrebatada. Só para fechar com uma nota positiva: a justificação do título é fantástica.

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