É triste que os programas de Português contemplem tão pouca ou nenhuma literatura dos países de expressão portuguesa. Lembro-me de ter analisado um conto, talvez do Mia Couto, envolvia uma vaca e um menino que pisava uma mina. E nada mais. Também tenho memória de um manual ter um conto da Clarice, ou pelo menos parte dele, aquele da rapariga com o livro [Felicidade Clandestina], mas é uma memória mesmo muito vaga, posso tê-lo visto noutro lugar. Dá-me a sensação que não damos a mínima para a literatura brasileira, que fará para os restantes. Será recíproco? Já contei aqui que quando estava à procura de informação sobre O Dia dos Prodígios da Lídia Jorge pasmei diante de duas teses de mestrado de pessoas brasileiras sobre o livro - pode ser um exemplo pouco importante, mas é mais interesse do que aquele que eu vi os meus programas de Português demonstrarem pela autora. Ou por escritoras em geral. Sem surpresa, com a História era igual - dava-me ao trabalho de estar acordada às oito da matina para ter duas horas daquilo e nem tinha o direito de abrir o manual e ver-me representada. Foi assim que aprendi o que é amor não correspondido. Talvez as coisas agora estejam diferentes...A culpa não era das docentes, é assim que o sistema está feito. Há coisas que não interessa analisar. E continuo a ver as discussões centrarem-se muito na dificuldade dos livros que fazem parte do programa e pouco na questão da diversidade e da igualdade.
Duvidoso Ensino
Educação, Literatura lusófona, Representatividade, Currículo escolar
Texto originalmente publicado em Desabafos Agridoces