Fotografia da minha autoria«A história extraordinária de uma mulher lutando pela sobrevivência»Avisos de Conteúdo: Morte, Tortura, Abuso, Doença, Linguagem/Cenas ExplícitasAs primeiras frases de um livro são cruciais para a envolvência do leitor. Por vezes, revelam-se um despertar lento; por vezes, arrebatam-nos ao ponto de ficarmos sem fôlego. Embora não limite a história a esse começo, por ser bastante precoce, a verdade é que não lhe sou indiferente. E, para mim, Karina Sainz Borgo escreveu uma das primeiras páginas mais surpreendentes com que me cruzei - e um dos melhores livros que li.DURO, VISCERAL, COMOVENTECai a Noite em Caracas transporta-nos para a Venezuela, um país em crise, no qual impera a corrupção, a criminalidade e a repressão. E a história deste lugar, que se funde com a da personagem principal, chega-nos pelo relato avassalador de Adelaide: uma mulher de 38 anos, de luto pela morte da mãe. Pouco tempo depois dessa perda, a sua casa é ocupada por um grupo de mulheres às ordens do regime. Sem nada, completamente à deriva, compreende que, tendo perdido tudo, a única alternativa que lhe resta é sobreviver.«Sepultámos tudo, porque depois da sua morte já nada nos restava»A primeira página desarmou-me de tal maneira que, sem o perceber de imediato, senti lágrimas a caírem pelo meu rosto. A crueza, a brutalidade e a magnitude do cenário de onde parte deixam-nos mesmo sem chão, até porque é fácil colocarmo-nos no lado da protagonista; é fácil percebermos que, por mais que não partilhemos a mesma dor, há vários sinónimos que lhe reconhecemos. E todos os seus destroços são uma lição de empatia.«"Somos do lugar onde estão sepultados os nossos mortos", pensei»Confesso que este livro não estava nos meus planos, no entanto, não resisti a adquiri-lo, assim que li as palavras que a Lénia Rufino lhe dedicou. Quando o terminei, compreendi tudo aquilo que queria transmitir.A METAMORFOSE DA SOBREVIVÊNCIAEsta narrativa - tão dura, desumana e visceral - mostra-nos o pior lado da humanidade e os efeitos nefastos da privação e da falta de confiança em relação aos demais; e mostra-nos o medo, o silêncio e o desnorte. Por outro lado, também nos permite conhecer a força inspiradora de alguém que se recusa sempre a sucumbir.«Se tivesse de escolher uma das fronteiras que cruzámos, ficaria com a da pele dele»Karina Sainz Borgo valeu-se do seu traço jornalístico e envolveu-nos num enredo ficcional baseado em factos reais. Com uma escrita concisa e direta, mas a transbordar de expressividade, abriu-nos uma porta valiosa, porque confronta-nos com outras vidas e necessidades. Mesmo que estejam longe, nunca poderão estar longe o suficiente para as ignorarmos. Por isso, alertou-nos para a urgência de agir e para o quanto são vulneráveis os nossos limites, quando estamos em situações de desconforto extremo e, pior, de perigo constante.«Tiraram-me tudo, até o direito a gritar»Cai a Noite em Caracas é uma história de luta, de superação. No meio dos escombros, num ambiente opressivo, sentimos que existem fantasmas a serem expiados. E, sobretudo, somos colocados na rota de uma mulher que, para sobreviver, teve de renascer. Acompanhar a sua metamorfose foi mesmo transformador.|| Disponibilidade ||Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Muito obrigada pelo apoio ♥