Fotografia da minha autoria

«Mesmo quando a cabeça ia vazia, ia como vão as meninas, cheia de pensamentos na margem»

Gatilhos: Violência, Negligência, Tortura, Linguagem/Cenas Explícitas

O desconhecido pode ser assustador. E, quando vem acompanhado de incompreensão, tendemos a reprimir quem nos rodeia: pela diferença, por não serem o que esperávamos, por acharmos que têm de se manter nos dogmas da sociedade. No livro de Djaimilia Pereira de Almeida seremos confrontados com esta dura realidade.

o que é uma menina

Toda a Ferida é Uma Beleza é a história da Maria: uma menina dócil, alegre, curiosa, que adorava escrever, mesmo que os seus traços não fossem percetíveis, mesmo que nenhuma palavra se formasse e a mensagem ficasse só a morar na sua cabeça. Ao encargo da madrinha, sofreu sempre na pele as consequências desse seu fascínio.

A narrativa é pequena (sessenta páginas), intercalada com as belíssimas ilustrações de Isabel Baraona, no entanto, demonstra bem a opressão que a protagonista viveu e o perigo das mentalidades fechadas e dos modelos que se pretendem perpetuar. Por outro lado, creio que satiriza o papel atribuído à mulher e a insistência de querermos o outro à nossa imagem, dentro de caixas que acreditamos serem as mais corretas. Tudo o que fuja dessa essência necessita de uma intervenção urgente.

O relato é duro, sem filtros e com vários momentos de crueldade pura, que podem chocar. Isto porque é inconcebível que alguém que tem a função de cuidar, independentemente de ser um elo familiar ou não, possa ser a maior fonte de dor. Portanto, sem querer revelar muito, digo apenas que me revoltei imenso com esta madrinha, cujo único propósito era castigar, quando aquilo que a afilhada mais precisava era de alguém que a aceitasse e a amasse tal e qual como ela era.

Não obstante, Toda a Ferida é Uma Beleza também nos mostra que, perante as atrocidades da vida, a bondade e o perdão são trunfos que desarmam quem só vive de escuridão. Por esse motivo, na sua inocência, Maria lutou pelos seus sonhos, procurou quebrar a ignorância com que a queriam cobrir e absorveu o mundo à sua volta, observando cada detalhe. Achei este contraste maravilhoso, até porque corrobora que não temos de manter certas narrativas e que cada um oferece o que lhe corre no peito.

Fiquei de coração apertado, mas o final trouxe esperança.

🎧 Música para acompanhar: Ferida, Inês Apenas

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