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«Vou cegar minha dor»
Avisos de Conteúdo: Discriminação, Racismo, Referência a Morte
A Elga Fontes (@quemmelera) recuperou o projeto Ler a Diferença, que consiste na promoção de leituras inclusivas, apostando em autores marginalizados. Para junho, propôs o tema «além do amor romântico» e, uma vez que pretendia regressar a Djaimilia Pereira de Almeida, senti que esta obra cumpria o propósito.
QUANTOS BOA MORTE EXISTIRÃO?
Maremoto é uma história vulnerável, triste e, ainda assim, bastante poética, que nos inclui nas trivialidades do quotidiano, no mesmo compasso em que nos desarma através de pensamentos e observações de uma beleza singular. Levando-nos até Lisboa, ficamos a conhecer Boa Morte, um ex-combatente da guerra colonial e arrumador de carros na Rua António Maria Cardoso, e a sua amiga, que vive na Rua do Loreto, na paragem do 28. É ao tentar arrumar a sua vida que Boa Morte vai escrevendo cartas a uma filha que não conhece.
«(...) somos quase um exército, mas ninguém nos vê por aqui»
Para mim, a amizade é um dos elos mais puros do amor e, neste enredo, assistimos a uma demonstração plena disso, porque, apesar de todas as condicionantes, apesar de todas as micro catástrofes que pautam o caminho do protagonista, há um cuidado com o outro que nunca é descurado. Em simultâneo, ao termos acesso à correspondência para a filha, fazendo-a presente nas mais diversas circunstâncias, percebemos o quanto a ama e o quanto lhe pesam as feridas e um passado aparentemente sombrio, que ditou a ausência. Portanto, num jogo de contrastes, seguimos as pegadas de um dos melhores narradores com que cruzei.
«Vou no fundo do poço buscá-la. É esforço sem glória e também não chego
para herói. Desço o poço nos olhos da minha amiga e não encontro ninguém»
Nesta história, marcada por uma escrita com uma certa musicalidade, Djaimilia Pereira de Almeida obriga-nos a olhar para aqueles que nos rodeiam e a reconhecer a diferença. Aliás, sacode-nos para que a abracemos e, sobretudo, para que compreendamos os pedidos de auxílio - que, não tão raras vezes assim, não são pronunciados, mas que se manifestam na subtileza dos gestos. Numa cidade que se reveste de tanta vida, é inconcebível que tantas pessoas permaneçam invisíveis, a viver do incerto, «daquilo que a rua lhes dá».
«Já é tarde para chorar meus erros, foi tarde no instante em que os cometi»
Maremoto confronta-nos com vidas complexas, com o peso da solidão, com as marcas da marginalização, com o impacto da pertença que se manifesta de um modo unilateral. Mas, acima de tudo, mostra-nos que o amor é a bússola que norteia os nossos valores e tudo aquilo que trazemos de mais puro no lado esquerdo do peito.
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