O destino é algo sem caracterização presente, que não é velho nem novo, excludente nem democrático, que não estipula critérios para aparecer, que surge aos jovens tanto quanto aos velhos, em imagens simples tanto quanto em fantasias elaboradas
Bruno Pernambuco
Subs. Masculino
- Sucessão de acontecimentos que não se consegue evitar; fado.
- Fatalidade a que estariam sujeitas todas as pessoas e todas as coisas do mundo:
Ex. ninguém é senhor do seu próprio destino.
- Que não se pode prever; futuro:
Ex. meu destino nem eu sei.
- Propósito de alguma coisa; serventia, emprego, aplicação.
- Direção que se segue; rumo:
Ex. andar sem destino.
- Local onde se quer chegar; meta:
Ex. projeto sem destino certo.
- A própria existência; vida
Ex. azares do destino.
O destino não está presente em nenhum lugar. Não faz parte da vida — é aquilo que a extrapola, que determina todos os seus acontecimentos, que a ata completamente sob a lógica de seu sentido próprio — e ao mesmo tempo não existe para além dela, não se localiza em qualquer lugar, não subsiste como uma categoria metafísica independente, não se separa daqueles acontecimentos que supõe governar.
Simultaneamente o destino é algo sem caracterização presente, que não é velho nem novo, excludente nem democrático, que não estipula critérios para aparecer, que surge aos jovens tanto quanto aos velhos, em imagens simples tanto quanto em fantasias elaboradas. O destino é um sentimento, e essa é inevitavelmente a forma pela qual ele se manifesta, mas há obviedade de que ele não seja apenas um sentimento. A clareza de que ele exista como algo que extrapola a interioridade, a necessidade, pautada por um trabalho conjunto da reflexão e do pensamento, de que ele seja definido com um substantivo, de que seja atribuído algo, mesmo que provisório, capaz de capturar sua forma intermitente e fugidia, que dele exige um destrinchamento linguístico.
Falar em “Destino” é necessariamente destrinchar uma palavra múltipla, que se divide em muitos outros termos. É necessariamente falar em contradições — o acaso, afinal, é uma composição dos eventos elaborados pelo destino, que interrompem o curso normal da vida e do livre-arbítrio, ou dos momentos que escapam do seu jugo, daquilo que acontece sem regra, sem sucessão, sem significado? Discutir a natureza do destino, poder categorizar sua necessidade, é discutir a natureza daquilo que lhe escapa. O destino é um conceito incompleto, necessita de dados empíricos, necessita da força movente da vida para adquirir sentido.
Não é possível dizer, a cada vez, mais que uma nota a respeito do destino. Sua força é tanta — mesmo que não seja definida como uma determinação absoluta dos acontecimentos, é tão compreensiva — que só é possível, a cada vez, falar a respeito de um aspecto seu. Os contos, as histórias curtas, são os gêneros que por excelência retratam as aparições do destino. São aqueles capazes de representar a sua dualidade, o movimento que está presente mesmo nas suas aparições mais estáticas.
Isso não quer dizer que o destino não possa se desenvolver lentamente, ao longo de um romance, aparecer na conclusão de uma novela, revelar-se como algo que ilumina acontecimentos passados. Mas sua aparição verdadeira é sempre em doses precisas e — falo aqui quase em como uma opinião pessoal, um desafio à sua autoridade —, é sempre o destino de alguma coisa que se mostra, se revela nos fenômenos.
Existir é não estar menos preso ao destino por conta de haver uma parte sua que inevitavelmente foge ao seu controle. Uma verdadeira questão filosófica não seria a incapacidade de fugir do destino — este fato já estava muito claro aos gregos — mas a incapacidade de vivê-lo. Seria muito tolo reduzir o destino a uma provocação, a uma sugestão de vida — a sua força tem outra natureza, um convencimento que está enraizado em uma outra forma de poder. Receber uma palavra — apresentada em um livro, uma peça, uma história, um filme — que é uma moção do próprio destino, uma imagem que ativa e conversa com o reconhecimento do destino pessoal, é um ato único, que está ao mesmo tempo dentro e fora das determinações.
Essência continua. Que anima que aquece, que não pertence e ao mesmo tempo pertence ao tempo e ao espaço.