Observem o rosto do Destino; observem a sua indiferença. O olhar fixo no nada. A inexorabilidade do percurso, sempre em frente, em avanço. Nada pode detê-lo. Destino não contempla possibilidades, caminhos alternativos, sonhos. Sabe da inutilidade de ir contra a maré. Avançar é preciso, e os outros devem se ajustar à sua caminhada. Das Schicksal (O Destino), 1905, por Hugo Lederer, Cemitério Ohlsdorf, Alemanha Seguros pelas mãos do Destino, homem e mulher são arrastados. Sofrem? Não, pois esta é uma estátua repleta de amor. Lição da pedra: não se deve lutar contra a força do inevitável. Ao invés de caminharem lado a lado com o seu algoz, o casal pretende negar a realidade, provocar coincidências, questionar acasos. Se não cederem, podem passar a vida inteira sendo arrastados. Destino é paciente. E caprichoso: não irá desistir. Nunca. Ele sequer olha para baixo, para quem seus braços fortes carregam. Os sentimentos do casal não importam; somente a jornada vale a pena. A mulher arrastada não tem mais forças para resistir; resigna-se, enfim subjugada. O homem ainda luta, e o seu esforço é comovente: a mão segura o pé do Destino, desespero tão patético quanto inútil. É o último esgar do condenado. No fundo, árvores eternas espreitam a batalha. Tímido, o musgo conspurca a pedra – o Destino pode ser inexorável, mas o Tempo é ainda mais paciente. Publicado por Gustavo Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo