Fotografia da minha autoria

Gatilhos: Luto

Uma visita rápida à Fnac, em julho, fez-me regressar a casa com um novo livro de Gabriel García Márquez. Quando as saudades de o ler se tornaram mais evidentes, fui buscá-lo à estante e percebi o porquê de as sentir - mesmo sem ter lido assim tantas obras suas.

simples, mas cheio de camadas

Ninguém Escreve ao Coronel é o segundo romance do autor e foi escrito enquanto trabalhava como correspondente de imprensa, em Paris. Nesta história, conhecemos um dos oficiais da revolução colombiana, reformado, à espera da carta que lhe mudará a vida.

Todas as semanas, o Coronel desloca-se até ao porto e espera por algo que parece nunca mais chegar. E há, aqui, um misto de esperança e desilusão, de melancolia e revolta. Em simultâneo, a mulher do Coronel está doente e o casal lida com a perda do único filho, que lhes deixou um galo de luta, e uma situação económica aflitiva. Creio que só o Gabo seria capaz de transformar um cenário destes numa narrativa tão bonita e especial.

«Na cama era um vazio. Agora, movendo-se pelo meio dos vasos de fetos e begónias, a sua presença transbordava da casa»

A história é simples, mas cheia de camadas e gostei particularmente das metáforas que o autor desenvolveu sobre o luto e a saudade - e de como me fez sentir que a simbologia do galo é bem mais profunda do que aquela que se observa no enredo principal.

Ninguém Escreve ao Coronel tem um espírito de sacrifício notável. A dado momento, quis só ficar ao lado do protagonista no porto, à espera que fosse reposta a justiça e que a correspondência chegasse às suas mãos.

🎧 Música para acompanhar: Zapatos Nuevos, David Mansfield

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