Fotografia da minha autoriaA minha proximidade com Gabriel García Márquez não é muito íntima, porque ainda só li quatro livros da sua autoria. No entanto, excluindo um deles - A Hora Má: O Veneno da Madrugada -, senti sempre a genialidade e a magia das suas palavras. E sei que, lentamente, hei-de viajar pela sua obra toda. Com essa missão em mente, avancei para um inédito, publicado este ano (em março). a liberdade de viverVemo-nos em Agosto é a história de Ana Magdalena Bach, que, todos os anos, a 16 de agosto, «apanha o ferry que a leva até à ilha onde a mãe está enterrada para visitar o seu túmulo». Num casamento feliz há vinte e sete anos e com uma vida estável, este ritual revelou-se um motivo para explorar identidades diferentes.A protagonista pode ser uma mulher comum, mas a maneira como Gabo a desenhou tornou-a memorável. E não podia estar mais de acordo com a Sofia, quando partilhou comigo que a fez lembrar da Eliete, de Dulce Maria Cardoso, porque têm ambas a singularidade de uma mulher que apenas quer viver e usufruir a sua liberdade. Além disso, demonstram que não é necessário existir um acontecimento doloroso para que haja a vontade de mudar algo em nós. Pode ser só aborrecimento, poder ser um desejo antigo, não importa muito a razão. O que importa é que nada pode continuar igual e, por isso, farão um investimento nesse sentido.Não sei como é que esta história fluiria, caso a doença não se tivesse intrometido, mas parece-me perfeita como está: nada é justificado ao detalhe, não se perde tempo a analisar escolhas e comportamentos e o leitor tem margem para imaginar. Aqui, é só a vida de uma mulher em movimento, a lidar com o seu luto, com a rotina, com o que conhece e com o que procura descobrir, incluindo-nos sempre em cada passo. Gostei mesmo de ver que o autor a construiu tão credível e como, através do seu ritual, nos mostrou tantas camadas.«Não obstante, foram-lhe necessários vários dias para tomar consciência de que as mudanças não eram o mundo, mas sim dela própria, que andara sempre pela vida sem a ver, e só nesse ano, ao regressar da ilha, começara a vê-la com os olhos do escarmento»Enquanto mergulhava na obra, pensava no desperdício que seria se tivesse sido destruída, conforme o autor pediu. Entendo o propósito, afinal, não a conseguiu trabalhar como pretendia, mas não deixaria de ser triste: primeiro, porque este livro foi a sua forma de continuar a lutar contra a doença; segundo, porque espelha muito daquilo que acredito ser a escrita do Gabo: imaginativa, poética e com uma visão fabulosa acerca do mundo e do ser humano. Para os mais entendidos, talvez precisasse de um pouco mais de revisão, para mim, sinto que preserva o essencial e esta pureza que nos desarma.E o final? Sublime! Porque é completamente diferente e porque nos deixa a porta aberta para sonharmos com a continuação. Viveria mais tempo dentro desta história, mas que privilégio que foi poder lê-la assim.Vemo-nos em Agosto lê-se num sopro, mas leva-nos ao lado mais íntimo do medo, do desejo e da resistência. As mudanças não precisam de vir de fora, nem precisam de ser expressivas, basta que comecem por dentro, de um modo silencioso. É o suficiente para que procuremos alternativas. Ana Madgalena Bach fê-lo e embalou-nos nessa dança.🎧 Música para acompanhar: Siboney, Orquesta Aragón & Omara PortuondoNota: Esta publicação contém links de afiliada da Wook e da Bertrand