Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

11-06-2010

Terminei. O final é arrebatador, na falta de uma melhor palavra. Mas o que de mais intrigante encontrei nessa segunda parte do livro foi a história contada pelo Capelão na Catedral, sobre a lei, o sentinela e a porta. Trata-se de algo único e que merece toda uma análise criteriosa que pode levar a diversas áreas do conhecimento.

O Processo, como todos os bons livros, deve ser relido. Sempre.

06-11-2010

Este é o primeiro livro que estou relendo nessa minha nova fase de leitor. O Processo conta a história de Joseph K., um jovem bancário que acorda um determinado dia e se vê com problemas na justiça sem que tenha feito nada de errado. O processo que dá nome ao título não é transparente – o protagonista não sabe por que motivo está sendo processado e não tem acesso a todas as informações. Algumas situações absurdas servem para Kafka dar vazão à sua crítica à justiça corrupta e também às suas angústicas – diversos setores do judiciário, por exemplo, funcionam no sótão de condomínios paupérrimos, em condições surreais. Em um desses setores o teto é muito baixo, de forma que as pessoas precisam andar encurvadas, uma situação que certamente inspirou o sétimo andar e meio do espetacular “Quero ser John Malkovich”. Aliás, Charlie Kaufman, em seus filmes, tem devaneios verdadeiramente kafkianos.

No meu caso em especial, por conta do tipo de trabalho que faço, o livro adquire uma importância capital: sua reflexão sobre a corrupção (não no sentido de stricto de desonestidade, de apropriação do que é público pelo privado, mas no sentido mais geral, que engloba o primeiro e contempla a ineficiência da burocracia, o desgaste de todo um sistema, levando-o à total falência) chama bastante a minha atenção. Kafka brinca com a burocracia, supervalorizando os trâmites e os documentos. Em determinado momento, por exemplo, a elaboração de uma petição ganha contornos tais que parece ser mais difícil escrever tal peça que contar em verso a saga dos judeus. Noutro momento, numa frase repleta de significado, assim o autor se manifesta a respeito da expectativa acerca da resolução do processo:

“Nessas condições, era de se perguntar, às vezes, se uma vida seria suficiente para se chegar a admitir que se pudesse ter êxito um dia.”

Outro trecho, também deveras elucidativo do modo como Kafka via o poder judiciário de então, mostra Joseph K. questionando o fato de que não havia notícias de que jamais algum acusado houvesse sido absolvido:

“Nenhuma absolvição real! […] Um único carrasco poderia substituir o tribunal inteiro.”

O Processo é mais do que literatura. Na verdade, como boa literatura que é, dialoga com a filosofia, a sociologia, a política, a psicologia, o direito…