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| Fotografia da minha autoria |
Os meus pais foram-me dando horizontes e a possibilidade de descobrir novas paisagens, mesmo que nos mantivéssemos dentro do território nacional na maior parte dos passeios em família. E eu nem sempre tive maturidade para reconhecer o privilégio que era não ficar apenas restrita a estas duas margens. Já mais velha, percebi a beleza que é olhar para fora da janela - se calhar, é por isso que, agora, perco tanto tempo a fotografar planos que estão acima da minha cabeça.
As viagens não eram inacessíveis, pelo menos não eram verbalizadas com esse rótulo, mas também não estavam no topo da lista de prioridades, porque existiam outras. Não foi por isso que conhecemos menos, apenas limitamos o raio de deslocação por um meio onde reconhecemos a língua, os costumes e há sempre a sensação de estarmos perto de tudo. Não me recordo de tudo, há lembranças que construo pelas palavras dos meus, mas criei muitas memórias de Norte a Sul de Portugal, sentindo-me em casa em diferentes pontos.
Regressei várias vezes aos mesmos lugares e ainda hoje o faço: pelo apreço, pelas histórias, pelo que ainda poderei viver em cada um deles. Consigo compreender o porquê de dizerem para não voltarmos onde fomos felizes, porque as memórias são calorosas, mas podem não ser completamente fidedignas, podem ter sido revestidas por um traço romantizado que, sem ter sido intencional, alimentamos com o passar do tempo. Nestes reencontros, aquilo que passei a fazer foi um exercício de identificação: o que é que há aqui que não vi antes? Tenho a certeza que é por isso que também adoro reler e reescrever: porque existe sempre um caminho novo para explorar.
No fundo, acredito que aquilo que procuro é a capacidade de me deslumbrar com o que já conheço, embora nunca conheçamos tudo ao detalhe. Há ruas que já podia percorrer de olhos fechados, mas continuo a preferir mantê-los esbugalhados, para me enriquecer, para descobrir diferentes perspetivas.
Viajar ainda é um luxo, por mais que nos vendam outra ideia, mas não tem de ser um sonho impossível. Tenho muitos destinos na lista de embarque, porque sinto que contactar com novas realidades nos expande e nos permite valorizar muitos traços do nosso percurso. Só levantei voo, pela primeira vez, aos 32 e nem foi para muito longe, mas foi longe o suficiente para apreciar essa liberdade, para criar mais memórias e ter uma experiência completamente original. Por isso, hei-de continuar a amealhar para que do luxo possa nascer uma constante.
O mais curioso é que, ao imaginar novos trilhos, permanece o desejo de um regresso, porque sou filha destas margens e a despedida não faz parte da equação. Há dias em que sinto falta de mundo, há dias em que percebo que ganhei raízes.
▪ agosto, 2024
