Fotografia da minha autoria

«Tudo parecia fértil, audaz, controlado, até que surgiu uma pandemia»

Avisos de Conteúdo: Referência a Famílias Disfuncionais; Morte, Álcool, Pandemia

É sempre com um misto de surpresa e gratidão que leio mensagens de autores a questionarem-me se estaria interessada em ler os seus manuscritos, porque sinto que é uma grande manifestação de confiança, sobretudo, atendendo a que o meu alcance não é assim tão expressivo. Por esse motivo, quando a Ana Gil Campos entrou em contacto comigo, aceitei com o maior gosto e foi ótimo ter acesso a mais uma voz literária nacional.

UMA DISTOPIA BEM REAL

Lobos Sedentos da Respiração dos Dias encontrou no Covid-19 um ponto de partida. Narrado entre duas cidades - uma já existente, a outra construída com o propósito de proteger a população -, acompanharemos o percurso de cinco personagens tão distintas entre si, que darão «voz a paixões, inquietações» e metamorfoses, muitas delas intencionais, mas a maioria por imposição da pandemia, que veio criar uma nova realidade.

«Felicidade não é um estado de espírito, é a existência serena na vida prática»

A capacidade do ser humano para se adaptar a várias situações é fascinante, no entanto, não é isenta de dúvidas e de comportamentos contraditórios, nos quais impera uma certa dualidade de critérios - porque, em determinadas circunstâncias, há áreas cinzentas que nos deixam no limbo. Neste romance, isto torna-se ainda mais evidente, até porque há regras divergentes na Cidade Velha e na Cidade Nova. Embora partam do mesmo problema, a maneira de atuar cumpre requisitos diferentes. E, deste modo, acabamos não só por refletir sobre questões de saúde e humanitárias, mas também por dialogar sobre medos, liberdade e felicidade.

«Pela primeira vez, sente-se absolutamente só, sozinha na respiração dos dias»

A escrita da autora agradou-me bastante, porque é clara, mas com alguns apontamentos líricos, e fluída. E apreciei o facto de, mesmo sustentada por um contexto concreto e tão real, ter construído uma narrativa com um tom distópico. Por outro lado, gostava que se tivesse demorado mais na contextualização de algumas cenas e caminhos. Entendo qual é o propósito - e que, no fundo, a intenção seja mesmo a de explanar esse lado de surpresa, do choque -, mas acredito que teriam outro impacto, caso não fossem tão céleres.

«Como somos frágeis quando entregues à palavra fútil do outro»

Lobos Sedentos da Respiração dos Dias é uma viagem de autodescoberta. É um alerta para o quanto as nossas ações podem ser prejudiciais para terceiros. E é um retrato muito interessante acerca das várias visões que um mesmo assunto pode adquirir. Por isso, ciente que tudo pode mudar num piscar de olhos, talvez a procura de felicidade seja o impulso que nos salva da incerteza e de um quotidiano fraco em esperança - ou, apenas, tão focado em atitudes mecanizadas, que nos transmitem a falsa sensação de estarmos a navegar, quando, na verdade, estamos todos a tentar manter-nos à tona, encontrando o fôlego para voltar a respirar.