Documentário reconstitui vida e carreira de uma das figuras mais emblemáticas da noite de Copacabana na década de 1970

Bruno Pernambuco

Em A Senhora que Morreu no Trailer, dez atrizes se revezam para constituir uma personalidade única: cada uma, sendo uma parte de Suzy King, a artista, faquiresa, dançarina e domadora de cobras, lhe é, também, inteiramente. “Muitas pessoas que assistiram ao filme não entendiam que aquelas mulheres eram todas a Suzy King”, explica Alberto Camareiro, um dos Albertos, dupla de pesquisadores, roteiristas e diretores, responsáveis pela obra. “Essa é uma ficha que só caiu depois- até lá, para essa gente o filme era outra coisa, uma história de várias mulheres” Nenhuma postulação, de qualquer forma, será mentirosa com relação à mulher que personificou múltiplas identidades, e, em simultâneo, muitas falsidades dentro de cada uma delas.

Suzy King não podia evitar ser si mesma, não podia evitar a intempestividade, a indignação, o inconformismo- tanto fica muito claro na biografia escrita pelos Albertos, um projeto que acompanhou a realização de A Senhora que Morreu no Trailer. No filme, vê-se essa figura- próxima, humana, como é mais do que o é em qualquer foto- acima de tudo, em sua solidão. O espectador acompanha essa personagem múltipla em momentos de peregrinação, por diferentes espaços que fizeram parte da sua vida. Os fatos que lhe aconteceram, em uma fala documental, são sempre narrados pelos outros, exibidos, em voiceovers, quando ela não está presente. Suzy King, fugidia, se mostra apenas, em recriações de momentos que ocorreram, perfeitamente coreografadas- ou então num atravessamento do tempo, num jogo com o presente em que por ele caminha uma figura que não lhe pertence

A escolha por misturar ficção e realidade, por intencionalmente confundir as formas do documentário e da ficção, acode à dimensão particular e multilinguística do trabalho dos pesquisadores. Procurar Suzy King é, também, procurar uma forma de representá-la- no trabalho com a memória essas coisas não se distinguem. A tradução de Suzy King surge em imagens multifacetadas, e que transpõem sentidos da realidade e da obra, como num espelho que serve simultaneamente de paralelo da personagem consigo mesma e da figura histórica com a realidade. A bailarina Márcia Daylin, trans pioneira no Corpo de Baile do Theatro Municipal, interpreta Suzy num interlúdio lúdico, que evoca os desejos da protagonista original, atravessando sua criação artística assim como seu julgamento, sua condenação a ser sem lugar na sociedade em que viveu. 

Mesmo com tantas facetas apresentadas de uma personagem única, muitas ainda, ficam por ser desveladas. “Há certas coisas que só acontecem, só se abrem para você, no envolvimento que esse trabalho de pesquisador, ou de função, proporciona”, explica Camarero, relembrando o encontro com Carlos, o filho de Suzy King. “Soubemos dele através de uma notícia antiga, de uns 20 anos, do que na época se chamava de ‘operação caça-mendigo’, feita em Belo Horizonte. Dentre mais de setenta moradores de rua que foram detidos, só um conversou com a reportagem: era justamente ele”. 

A abertura aos movimentos do destino, no caso dos autores, e de A Senhora que Morreu no Trailer, faz parte tanto do trabalho de pesquisador como do de diretor, e o filme, em suas contradições, invenções líricas e imagens complexas tecidas a partir do trabalho de suas atrizes, não perde a dimensão de ser uma obra documental afetada pela ação do tempo e do acaso. A presença de Carlos, mencionado no filme, se faz perceber para além daqueles fatos que são mencionados na obra; está presente como um farol da pesquisa dos Albertos.

“Quando nós o encontramos pela primeira vez, ele nunca se referia à Suzy como mãe”, complementa Oliveira, o outro Alberto, a seu respeito. “Passamos uma pesquisa inteira, de anos, conversando com ele enquanto ele falava sobre ‘aquela mulher lá’, ou ‘aquela que morava comigo’…

Uma chamada recente que fizemos com ele, por vídeo, foi a primeira vez que eu o ouvi dizer ‘a minha mãe’”

Todos os jogos de A Senhora que Morreu no Trailer são intencionais, pensados. Como no Jogo de Cena de Eduardo Coutinho, os sentidos de intérprete e personagem se confundem. Ao contrário do documentário do mestre, porém, o espaço é um personagem de A Senhora que Morreu no Trailer de uma forma retalhada, múltipla, apresentando diferentes imagens e personalidades. É um retraço do caminho de Suzy King, de onde seus pés percorreram- uma solução encontrada pelos autores que não podiam excluir sua própria história, errática, de ser também personagem da trama. As filmagens com uma câmera GoPro dão ao relato dos autores/diretores um certo teor de uma viagem qualquer, como se aqueles dois se confundissem com quaisquer turistas passeando pela baixa Califórnia- a especificidade daquela história que é contada, e do destino da descoberta de suas partes, se dá por meio de visitas, entrevistas, aparições dos amigos e colaboradores que ajudaram a ajambrar essa narrativa. A filmagem com a câmera móvel, também, revela uma amplitude das paisagens e das imagens, um retrato panorâmico, que permite contar de forma verdadeira essa história, definida por lugares estrangeiros, tanto aos realizadores quanto- deixam claro os relatos- à sua personagem.

A pergunta derradeira- entoada na canção Alone, composta para a obra- que fecha o filme, e define o espaço enclausurado do trailer como tumba e como conclusão para todas aquelas histórias- “estava ela presa ou acostumada?”, “was she trapped or just resigned?”, define  aquela figura de quem foram reveladas tantas faces. A questão permite que Suzy King se apresente, se não inteiramente, ao menos talvez em sua feição mais verdadeira. Ela estava presa a si mesma, à mudança de pele e de identidade constantes? Ou apenas se acostumou a esse personagem sem rosto, e simultaneamente com sua imagem tão alardeada, tão representativa, estampada sempre em alguma forma de afronta? As respostas a essas perguntas não teriam, necessariamente, de ser excludentes, mas de qualquer é certo que é muito mais rico deixar que elas não se resolvam, e que essa contradição esteja evocada em imagens. A despedida de A Senhora que Morreu no Trailer é triste, especialmente por, em meio ao seu lirismo, a suas sequências interpretadas, inspiradas na Suzy King original, apresentar a forma mais crua daquela solidão- aquilo que foi seu verdadeiro destino. Ao mesmo tempo, esse encontro com Suzy King, com suas múltiplas faces, com suas possibilidades, sugestões de quem pode ser, é um atravessamento que, tocando o espectador, o faz sentir-se menos sozinho consigo. Nessa dimensão, da presença evocada em cada um, os Albertos revelam Suzy King como uma imagem viva, pulsante e que evoca a transformação. Como uma personagem que, habitando o seu presente que se esvaiu, simultaneamente habita o tempo corrente através de suas marcas que aparecem e somem.